Publicado em 24 de março de 2016 Cultura, Destaques Um elogio as diferenças

Bastou entrar no facebook pra perceber. Entre notícias atualizadas sobre a situação do país e análises profissionais dos desdobramentos havia o derramamento de impropérios e acusações dos dois lados: coxinha, petralha, fascista, comunista. Eu de cá me perguntava: por que é tão difícil aceitar e conviver com quem pensa diferente da gente?

Vários estudiosos já escreveram sobre a função constitutiva da linguagem para o humano. Como diz Vygostky, teórico do desenvolvimento humano, pensamos através das palavras e somos a única espécie que assim o faz. Construímos e compartilhamos signos e símbolos e assim atribuímos significados ao mundo que nos cerca. Lindo, né? Mas se o que nos diferencia, nos torna humanos, é justamente a habilidade da linguagem, por que não conseguimos conversar com quem pensa diferente de nós? Por que fazemos palanque para mostrar por a + b que estamos certos e convencer os outros a assumirem nossa posição? Quando se trata de comunicação não há por que falar se não houver quem ouça, mas parece que ninguém quer ouvir…

Ana é a favor da manutenção do governo atual, pois ela acredita nas melhorias sociais alcançadas, tendo ela mesmo entrado na universidade através dos novos projetos. Ela receia que caso outro partido assuma o poder essas iniciativas não recebam mais verba. Legítimo, não? Pedro espera que o governo atual saia do poder, pois ele e seu pai ficaram desempregados em virtude da recessão econômica que tem assolado o país nesse momento e ele não acredita que a gestão atual possa reverter esse processo em curso. Legítimo também, certo?

Se ao invés de se ofenderem na internet Pedro e Ana conseguissem se escutar de forma ativa e empática, calçar os sapatos um do outro para entender de que lugar surge a linha de pensamento de cada um, o que aconteceria? Provavelmente eles aprenderiam. Conviver com o igual é fácil  e nos mantém na zona de conhecimento que já possuímos, sem nos propor um exercício de adquirir novos repertórios. Conviver com o diferente por sua vez é desafiador, faz com que a todo momento voltemos e questionemos se aquilo que havíamos pensado ainda faz sentido frente ao novo argumento exposto. “Certezas o vento leva, só as dúvidas ficam de pé” já dizia Leminski.

Preterir o diálogo em função da ofensa gratuita é desprezar uma possibilidade de troca simbólica importante. Mergulhar nos profundos do outro, interessado realmente no que ele tem a dizer pode nos levar a releituras conceituais mais importantes para o nosso crescimento do que o simples domínio de “verdades absolutas” inquestionáveis. Muito mais interessante do que saber se a pessoa chama de biscoito ou bolacha, prefere toddy ou nescau,  é  #teamcap ou #teamiron, vota na esquerda ou na direita, é conhecer as razões que construíram o sentido desses raciocínios, no que se ancoram para existirem.

Além do quê, não esqueçamos: somos todos muito mais parecidos do que essa cultura de reforço a separação em função das diferenças nos faz crer. O que há por detrás de cada um ao pensar como pensa? Sonhos, crenças, valores, vontade de que as coisas deem certo, desejo de ter uma vida boa. Todos compartilham disso. Todos estamos fazendo leituras pessoais de tudo que existe ao nosso redor e atribuindo significados em tempo integral. “Não existem fatos, apenas interpretações”, segundo Nietzsche. Quem nesse momento veste vermelho, verde, preto, branco ou qualquer cor assim o faz com o mesmo desejo – legítimo. Rubem Alves tem razão, nos faltam cursos de “escutatória”. Que pena. Espero que valha a pena levar tudo isso em consideração na próxima vez que der vontade de tretar na internet, não?

You may say I’m a dreamer but i’m not the only one…