Publicado em 1 de setembro de 2016 Cultura, Destaques Solidez

Um amigo desabafava suas preocupações com seu tio que já com seus setenta e poucos anos tinha uma namorada que lhe parecia estar presente apenas nos momentos de usufruir e não nos de doença – que com o passar do tempo vinham aumentando em quantidade e intensidade. Na hora me lembrei de um rapaz que eu conheço que precisou ser internado e cuja esposa não pôde dormir com ele sequer uma noite por lá de ocupada que era – causo que deu em divórcio.

Zygmunt Bauman, sociólogo, cunhou o termo “liquidez” para explicar fenômenos ligados ao efêmero, dissertando sobre “amor líquido” ou “sociedade líquida” para explicar o esvaziamento de alguns de nossos laços (e a facilidade com que se rompem) com o outro que nos rodeia. Kundera em “A insustentável leveza do ser” faz um texto explorando essa dicotomia do leve com o pesado, explicando a visão da nossa sociedade sobre o leve como sinônimo de bom e o pesado como sinônimo de fardo pontuando, contudo que o leve pode nos deixar etéreos enquanto o pesado nos aproxima do chão da realidade.

Concordo porque acredito que a vida seja pesada – embora divertida, florida, surpreendente, leve, doce, delicada, bonita, emocionante, injusta, reflexiva, castradora, dura, algoz – em sua essência. A rotina impõe seus pesos reais como horários, prazos, preços, limites, fome, calor, frio, desemprego, hora extra, busca por um salário melhor, adoecimento, envelhecimento, violência, impostos e etc. Estando vivo não há escape para a conexão com as “imposições do real.”

“Debaixo d’agua tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar, mas tinha que respirar” – é o que diz Arnaldo Antunes na canção. Em outras palavras, menos líricas: na fantasia com que vestimos nosso cotidiano podemos enfeitar domingos (e até certo ponto isso é MUITO saudável), mas de vez em quando temos que respirar e erguer a cabeça para fora do líquido, encarando a solidez do real, permitindo que o peso nos conecte com o chão e nos torne também reais.

Conheço muitas pessoas que tem medo de envelhecer ou da morte dos que amam talvez porque sejam vias certeiras de conexão com o peso – o peso de se conhecer, o peso de encarar feridas expostas que por mais esforço que se faça não conseguem ser varridas para debaixo do tapete. Pessoalmente sempre fui muito próxima de meus avós e tive a chance de ser muito presente nos últimos anos de vida de meu avô. Literalmente pesado o carregar físico depois de uma queda, subjetivamente pesado ver quem se ama se queixar da dor física ou da dor da perda de algo que antes lhe era intrínseco. A velhice é uma lembrança de nossas perdas, desde os centímetros de nossa altura a algumas capacidades que algumas vezes algumas doenças levam. E não, não estou reduzindo-a a isso pois como tudo na vida ela tem muitas facetas.

O amor, os amigos e a família, contudo nunca  foram levados do meu avô. Sempre recebeu carinho, visitas, paciência mesmo quando deixou de ser “leve” (entre muitas, muitas aspas) por nos solicitar demandas. E assim foi até o fim. Certa,mente ele caminhou caminhos diferentes da moça que deixou de sair com o rapaz quando ele parou de pagar as contas das saídas. Ou da outra que achava que o fato do cara ter um avião fazia com que ele fosse um partido imperdível. Ou do amigo que só aparece no verão com a máxima de sempre “eaí sumido, quando vai rolar essa piscina ou essa casa de praia ou aquela velha carona ou qualquer coisa que você tenha a oferecer”.

Se divertir juntos é das melhores coisas que existem na vida! Mas não pode ser a única, vai. Ou até pode, mas é ilusão. Todo mundo pesa e só quando entendermos e suportarmos nosso próprio peso poderemos nos relacionar com o do outro. Talvez a gente só pare de achar um saco aquele amigo que fala sobre como está se sentindo depois do término com a namorada quando a gente conseguir olhar pra dentro e avaliar como a gente se sentiu quando aconteceu com a gente – por detrás das bebidas nas festas ou dos brigadeiros com netflix. Talvez a gente só possa visitar no hospital a amiga internada quando a gente entender que estamos todos submetidos aos limites do nosso próprio corpo, muito menos “poderosos” e “eternos” do que gostamos de supor. Talvez os dois olhares – pro outro e pra dentro – sejam pesos que nos amparem no mundo.

Penso numa árvore. As estações obrigatoriamente vão passando e agindo de acordo com seu curso natural (como a vida), trazendo ventos que derrubam as folhas, desabrochar de flores, tempo de frutos, folhas tingidas de outra cor. Lá em cima, na superfície, as estações vão conduzindo as transformações mas se olharmos o tronco, entre épocas, persevera sólido sustentando a árvore. Que dirá então da solidez de suas raízes?

Gosto de solidez. Adoro sentar e falar besteiras infinitas (mesmo!), mas conheço o valor de quem segura o peso e a dificuldade de cercar-se dessas pessoas. Sou grata aos amigos que foram me ver quando tive meningite. Ou depois da cirurgia. Ou da batida de carro. A todos que permitem que eu exponha que minhas dúvidas, angústias e medos fazem parte da composição do que sou eu. A todos – os familiares, amigos, namorados – que ficam quando a luz da festa se apaga, a todos que sabem que talvez não haja mesmo nenhuma festa, a todos que usufruem do que eu posso oferecer mas também me usufruem quando o tudo que há sou apenas eu ou migalhas de mim.

Como dizia Millôr Fernandes: “Chuva passa, tempestade passa, até furacão passa. Difícil é saber o que sobra.” Ou quem sobra, Millôr, ou quem sobra.