Publicado em 7 de julho de 2016 Cultura, Destaques Sobre sexo, amor, vida e morte.

Sexo é vida, diz a propaganda de um grupo médico que cuida de disfunções eréteis. E eles tem razão. É através do sexo que celebramos a vida, ao perpetuarmos a espécie, ao nos perpetuamos, ao nos oferecermos  a noção de continuidade pois nós podemos até ser finitos mas deixamos os nossos.

Ao envelhecer muitos homens ficam sedentos por sexo, mesmo que o corpo não obedeça ao pedido do desejo, justamente como sopro de vida diante da proximidade do fim. Em uma cena especialmente bonita do filme “Truman” (excelente, recomendo!) um casal de amigos faz sexo entre lágrimas por saber que a morte de um amigo com câncer terminal se aproxima e por não saberem lidar com todas as emoções que isso traz a tona em suas vidas – a morte do outro sempre é um lembrete da nossa.

Amor, por outro lado, se aproxima e nos aproxima da morte, como pontua Clarissa Pinkola Estés em seu livro “Mulheres que correm com lobos”, em um capítulo especialmente bonito. Ao entrarem em cena ambos nos tiram a condição fantasiosa de controle, nos desarmando de nossa ilusão preferida. Não sabemos quando vamos morrer e seguimos vivendo dia após dia tentando não pensar na inevitabilidade deste encontro. Não sabemos quando vamos amar e vamos organizando nossa agenda de acordo unicamente com nossos desejos até o amor chegar e bagunçar tudo. Estes dois encontros, ainda que esperados, nos desorganizam quando enfim acontecem.

Clarissa sinaliza que tudo ao nosso redor está sempre se encerrando e iniciando, desde a lua e seus ciclos as células do nosso corpo.  Tudo que começa em algum momento acaba. A única certeza estável é a garantia da instabilidade. Estamos sempre mudando e compondo novos ciclos. Períodos de fartura, períodos de austeridade, épocas de riqueza de afeto e outras de aridez. O amor que persiste sabe dançar com a morte, compreender os fins e reescrever começos. Só abraçando a finitude podemos conhecer a fênix. O amor tem seu preço e ele é pago em moedas de coragem. Ele não aceita moedas de “mas”.

Quando o amor se sobrepõe a paixão começam as pequenas mortes em nosso campo simbólico. “O que morre? As ilusões, as expectativas, a voracidade de querer tudo, de querer que tudo seja só lindo, tudo isso morre.” Qualquer pessoa que tenha passado pela experiência de uma vida costurada a quatro mãos sabe exatamente do que Clarissa está falando. Aos caírem em si sobre o trabalho braçal que o amor para além das aspirações hormonais exige, o primeiro instinto de muitos é a fuga e o desejo de se manter na zona de conforto grita afinal não estamos onde estamos a toa e sim para satisfazer nossos desejos conscientes e inconscientes para fins de evitar frustrações no encontro com a realidade. (Dá-lhe, Freudinho!)

Terapeuta experiente, Clarissa diz que nessa hora, enquanto a caveira do amor dança procurando um par, as respostas padrão tendem a surgir, mais racionalizadas do que nunca: “posso me dar melhor com outra pessoa, não quero renunciar a meu (preencha a lacuna), não quero mudar minha vida, não quero ter que encarar as minhas feridas ou as de ninguém mais”, “ainda não estou pronto” ou ainda “não quero ser transformado sem primeiro saber nos ínfimos detalhes como vou ficar e me sentir depois””. Ela chama esse momento de “fase de correr e de se esconder”. O amor, contudo, é como a morte – por mais que escapemos por um triz de vez em quando, em algum momento ele fatalmente nos encontrará. Podemos escapar da pessoa X mas não do amor em si.

Milan Kundera no seu maravilhoso “A insustentável leveza do ser” reflete sobre o valor atribuído a leveza e ao peso, apontando que o peso nos conecta com a realidade. Clarissa concorda com ele: “Sem uma tarefa desafiadora, não pode haver transformação. Amar os prazeres é fácil, já amar de verdade exige um herói que consiga controlar seu próprio medo”. Eu pensei nessa frase todas as vezes que entrei na UTI para visitar meu avô, inundada pelo terror de perdê-lo, mas imaginando o pavor dele de estar ali sozinho frente a inevitabilidade do próprio fim (sempre foi seu maior medo). De que me adiantaria a covardia? O amor é tecido de coragens, ainda que por vezes das mais dolorosas. Além do mais “O medo é uma desculpa insuficiente para não realizar essa tarefa. Todos temos medo. O medo não é nenhuma novidade. Quem está vivo tem medo.”

Dentre os muitos medos do amor e da morte surge o medo de dormir na frente do outro. Dormir é abdicar dos processos de razão e consciência se colocando no campo da fragilidade do inconsciente. Ao dormir na frente de alguém se exercita a confiança – não sabemos o que podemos falar ou o que o outro pode fazer conosco, mas aceitamos o desafio. Ficar para dormir acaba sendo mais íntimo que transar, por exemplo, e por isso difícil para alguns, como tudo que os faça experimentar vulnerabilidade.

O amor mata o egoísmo. Mata o controle. Mata as certezas. Ao colocar outros elementos na equação da nossa vida somos compelidos a pensar além de nossos próprios prazeres e comodidades. O amor e a morte nos obrigam a fazer o mesmo exercício: encarar nossos fantasmas, pelas vias do encontro ou do desencontro com o outro. Pode ser que deles nasçam novas feridas – afinal morte e vida andam mais próximas do que ousamos supor – mas também emergem as maiores possibilidades de autoconhecimento.

“Se nada nos salvar da morte que pelo menos o amor nos salve da vida”. Talvez seja mesmo isso, Neruda.