Publicado em 18 de agosto de 2016 Cultura, Destaques Será que vale mesmo tudo pra ser “campeão”?

Tudo aconteceu naquele sábado de manhã no interior de Minas Gerais.

Mentira. Na verdade tudo começou quando eu tinha uns seis, sete anos. Nasci em Salvador, numa família toda tricolor – a exceção de uma prima mais velha que enaltecia feliz da vida a boa fase do Vitória. Meu pai, sagaz, logo percebeu que eu precisava ser possuída pelo ritmo do Bahia antes que fosse levada pela boa onda do rubro negro (vai dizer que vocês não conhecem uma porção de moleques que se dizem santistas porque assistiram os melhores momentos do Neymar por lá?) e tratou de providenciar esse nosso encontro.

Fui pra Fonte Nova completamente uniformizada, com direito a meião e pintura temática no rosto. Comi todo sorvete e pipoca que consegui. E vi, junto dos meus primos, a torcida gritar, chorar, comemorar, esbravejar e se esmilinguir durante os noventa minutos. Incrível. E resolvido. Eu era Bahia e ia ser pra sempre. Eu estava fadada a saber o que era um impedimento e a achar que ficar em frente a tv assistindo futebol em um domingo era um programa bem aceitável e não um motivo de “DR” nos meus relacionamentos amorosos. Mais tarde quebrei pulso jogando futebol, perna jogando basquete, tive o direito dificilmente conquistado de ser levantadora do time de vôlei dos meninos mais velhos na hora do recreio. Me engalfinhei com meninos jogando bola e já cheguei em casa apanhada em briga de baba quando era criança.

Quando eu tinha dezesseis anos nasceu meu irmão com uma canhota das boas. E depois da iniciação ritualística ao tricolor, veio o Neymar. E pronto, o menino é uma máquina de pensar e jogar futebol. Assim, por força de todos esses fatores eu fui parar em um campeonato infanto-juvenil no interior de Minas Gerais no final de Julho, completamente afônica de tanto berrar incentivos e táticas e gritos de guerra, inicialmente pro meu moleque, posteriormente para todas as crianças que me aparecessem na frente. (Sim, eu sou uma irmã mico. Sim, o mano oscila momentos de vergonha, aceitação e orgulho de quem eu sou.)

Naquele sábado de manhã em Minas Gerais jogava o sub-quinze do clube que meu irmão joga, contra os meninos de uma famosa escolinha de time grande paulista. Um menino específico do nosso time, de seus treze anos, joga bonito demais. Desses que dribla, cria espaço, corre e inebria a torcida. A criança em questão estava apanhando horrores dos adversários. E a torcida puxando a orelha do juiz após ter assistido outro jogo no qual outro juiz chamou os meninos, um de cada time, de canto após uma falta mais brutal e perguntou onde eles queriam chegar com aquilo – recebendo uma chuva de aplausos de todos os presentes na arquibancada. Eram crianças jogando e crianças são educadas nas vivências, oras. Tarefa dura que cabe a nós adultos. (Eu, por exemplo, não vaio. Pode me aparecer o time truculento que for, podem caçar meu canhotinho, pode me surgir até o francês pernóstico do salto com vara – prefiro empurrar os meus com palavras de incentivo do que tentar rebaixar o adversário com o som de uma vogal comprida.)

Íamos assim, torcida animada em sua maioria composta por mães corujas, empurrando nossos meninos até que, no intervalo entre os tempos, escutamos o treinador do outro time dizer aos seus jogadores (molequinhos de no máximo quinze anos!) que quebrassem o nosso número dez, aquele menino magrelo do jogo bonito. Oi? O adulto responsável, muitas vezes chamado de “professor”, por educar aquelas crianças estava mesmo incitando a violência e em outras palavras dizendo a elas que pela vitória valia tudo, inclusive machucar o outro de propósito?

Eu entendo quem não gosta de futebol, por exemplo, mas sempre vi o esporte como uma via de crescimento por ser uma amostra grátis do que é a vida. O esporte não é justo. Nem sempre ganha o melhor. O fator sorte – o famoso lugar certo na hora certa – sempre dá seu jeito de aparecer. Não se ganha sempre, inclusive de vez em quando se perde pra quem não merecia ganhar. O esporte na vida real é ainda mais educativo do que o jogo do videogame ou do celular porque não dá pra dar um pause e comprar um jogador melhor, mais pokebolas ou o que quer que facilite a vitória. Ele nos obriga a ir em frente com os recursos que temos ou não temos, a lidar com a dureza de uma realidade que muitas vezes nos chateia.

Assisti assim, chateada, o outro time bater e sacudir tanto nossos meninos a ponto de nosso treinador dizer ao juiz que se assim continuasse ele ia tirar nosso time de campo. Assisti assim eles fazerem um gol na gente. E terem dois jogadores expulsos por causa das faltas e das ofensas dirigidas a nossa torcida. Assisti eles ganharem e virem desfilar na nossa frente. Continuei sentada gritando “time de guerreiros” pros meninos do meu time. E a confusão se instaurou no campo. E meu irmão foi as lágrimas porque “isso é muito injusto”. E me olhou nos olhos e pediu pra eu fazer alguma coisa e eu tive que responder que não havia nada a ser feito, a vida é assim mesmo, nem sempre justa e a gente precisa aprender a lidar com a frustração e que o que valia era a gente continuar fazendo o nosso melhor. Poucas vezes falei palavras tão necessárias, mas tão doloridas de serem ditas. Detesto quando a dor ensina e o amor tem que aceitar.

Essa semana na Olímpiada que acontece aqui no nosso país uma nadadora foi desclassificada por dar um “caldo” na outra. Me disseram que ela tinha a certeza da medalha de prata mas optou por dar um “caldo” na outra atrás de ganhar o ouro. Não pude evitar pensar sobre a cadeia de significantes dela. O que era um ouro, uma prata, um pódio, uma medalha? Que valor ela teria atribuído a esse ouro para de repente os fins justificarem os meios? Tá valendo mesmo bater, afogar e tudo mais pra ser vitorioso? Afinal, que parada quer dizer “vitorioso” que por isso vale a pena qualquer coisa? Ela era de um país ocidental da Europa, ou seja, será que não aprendemos todos com a mesma cultura da “vitória”?

Sabe irmão, provavelmente ainda vai ter aquela professora que vai te bronquear quando você não tiver feito nada. Ainda vai ter aquela seleção de estágio em que você será preterido porque o concorrente tem um “quem indica” muito bom. Vai ter aquela menina que vai preferir um cara mais mané. E você vai ficar chateado como ficou naquele sábado no interior de Minas Gerais mas talvez já entenda que essas coisas acontecem, mesmo. O que importa é que você não se perca, de verdade. Que você dê o seu melhor para deitar a cabeça e dormir em paz. Que você entenda que não adianta ter vitória se não tiver ética, se não tiver respeito, se não tiver humanidade. Tem fronteiras que a gente não pode cruzar sem assumir o risco de naturalizar o que é errado, o que é ruim. A dor ensina. O amor também. Pode contar com o meu colo sempre, mesmo quando eu não puder dizer o que você gostaria de ouvir.