Publicado em 23 de junho de 2016 Cultura, Destaques O silêncio dos homens

Sou genuinamente encantada pelas pessoas e por suas histórias e acredito que, de alguma forma, a sinceridade do meu interesse transpareça na minha escuta atenta ou no meu olhar acolhedor, pois é comum que as pessoas se sintam confortáveis para partilharem comigo seus segredos. Inclusive os homens.

Anos atrás li uma entrevista do Contardo Calligaris (psicanalista italiano) que abordava a “questão do homem contemporâneo”, focando na dificuldade que os homens vinham enfrentando frente as mudanças das convenções que geriam como eles deveriam se comportar. Contardo havia escrito uma peça chamada “O homem da tarja preta” para falar um pouco sobre isso. Assisti a peça duas vezes e saí com a sensação de que a real questão não estava sendo contemplada.

Para falar dos desejos sexuais fora da roda da “normatividade” já havia certo material de boa qualidade, de Sade a Nelson Rodrigues. Eu queria entender como os homens se sentiam nessa altura do jogo, inconscientemente, irracionalmente. Meu palpite era de que se sentiam sozinhos diante de um fenômeno que se impunha sobre eles, mas para o qual não tinham sido preparados de forma alguma: a extensão de seus sentimentos e a maneira como isso reverberava nas esferas de suas vidas.

Frederico Mattos, psicólogo e colunista do site Papo de Homem, e Ivan Martins, jornalista e colunista da revista Época, pareciam partilhar da minha preocupação e concordar com meu palpite. Sabe, eu “fui a campo” e por baixo dessa imagem de “tô de boa, só quero curtir” dos homens da minha geração (20 – 30) havia muita coisa mais profunda que eles escondiam até da família ou dos melhores amigos.

Um rapaz tinha morado seis meses com amigos e nenhum deles tinha percebido as crises de ansiedade que ele tinha. Outro estava enfrentando um processo de luto pela perda de um parente próximo. Outro curtia uma big fossa pelo término de um namoro. Outro tinha restrições alimentares que lhe angustiavam a ponto de limitar sua socialização. Nenhum desses caras estava falando sobre isso com alguém. Todos eles estavam tentando tocar a vida como se os outros elementos dela – trabalho, lazer, família, vida sentimental e sexual – pudessem existir sem serem afetados pela dor que os afligia, seguindo a lógica que divide as coisas numa tentativa de facilitar sua compreensão, como quando a gente fala de vida real e vida virtual ou de corpo e mente como se fossem coisas distintas.

O Frederico usa a expressão “apatia existencial” em um de seus textos para explicar a sensação de isolamento dos homens frente aos estereótipos que os bombardeiam e que não geram uma identificação, culminando na manutenção de uma postura  de que “o que vier é lucro, vamos apenas curtir o que está rolando, vamos levando”.  O isolamento por si só retroalimenta a postura já que diante do outro – especialmente de um outro que me queira bem – sou quase sempre convidado a tentar me entender (até pra separar o que é meu e o que é do outro nessa mistura), a dar ouvidos a meus sentimentos, falar sobre eles, partilhar experiências, rever conceitos, repensar objetivos, etc. Há um limbo entre como se veem e o que é exigido deles e nesse espaço nasce o “psiquismo fragmentado”.

 O outro, seja chefe, colega, amigo, interesse romântico, membro da família, qualquer um, quase sempre nos empurra no sentido do crescimento, pois nos brinda com a realidade da sua existência, que é muitas vezes diametralmente oposta ao que desejávamos ou fantasiávamos. Repito meu exemplo favorito sobre os benefícios do outro na nossa vida: sozinho com meus pensamentos posso atribuir a mim qualquer característica, mas na frente de uma pessoa grosseira descubro se sou realmente paciente, encarando alguém arrogante testo minha humildade, no convívio com alguém necessitado percebo se realmente sou generoso.  O outro é a direção dos nossos afetos e quando ele os menospreza – como aquele broder que ao ouvir você falar que está apaixonado por alguém pergunta se você “aviadou” (porque ainda hoje a maior ofensa ao sentimento é diminui-lo a coisa menor, de mulher) – algo em nós adoece e acuado, tende a se esconder. E muitos, diante desses outros e de suas “exigências”, tem mesmo preferido o conforto (não-confortável, mas conhecido) do isolamento.

Sofrem os homens, que seguem pela vida com o repertório emocional e de autoconhecimento limitados, vivendo sob o risco de se sentirem “estuprados emocionalmente” (termo do Ivan Martins que eu adoro!) frente as demandas das relações. Sofrem as mulheres que se encontram com eles pelo caminho. “O que não se aprende no amor, se aprende na dor”, diz o ditado, mas como aprender em algum dos dois se os estamos guardando inteiramente para nós mesmos, crentes de que o fundo do peito é o lugar ideal para ser seu lar? O caminho dos autodidatas tende a ser mais solitário. E mais difícil. Ou alguém gostaria de viver a vida como Hugh Glass (Leonardo DiCaprio em “O Regresso”), machucado e solitário, vagando pela aridez do mundo?

Obs. Se você se interessa pelo tema e gostaria de ler um pouco mais sobre isso, recomendo os três textos abaixo para início de conversa.

Frederico Mattos: Solidão Masculina (http://papodehomem.com.br/solidao-masculina/)

                                Depressão Masculina (http://papodehomem.com.br/depressao-masculina-or-id-45)

Ivan Martins: O que os homens querem (http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2015/07/o-que-os-homens-querem.html)