Publicado em 21 de julho de 2016 Cultura, Destaques Na vida é tão bom ter amigo

Quando eu tinha uns cinco anos a melhor brincadeira do recreio era no parque de areia. E eu só podia aproveitá-la graças a dois anjos. Para brincar na areia a regra era ficar descalça – e eu não sabia amarrar meus cadarços na hora de voltar pra sala de aula. Se não fossem essas quatro mãos que generosamente manipulavam os laços eu não teria tido recreios tão legais.

Na sétima série eu só passei em desenho geométrico por obra de uma amiga que estudava pacientemente comigo. Com quinze anos não fosse uma amiga empurrar o paquerinha nos meus braços eu não teria dado meu primeiro beijo. E sem o apoio dessas mesmas pessoas eu também não teria me metido a ser líder de sala, capitã de time ou a publicar poemas no jornalzinho do colégio.

Tive minha primeira ressaca em uma viagem com as amigas – pessoas abençoadas que nos carregam até o posto de saúde mais próximo. Já liguei para amigas de madrugada para não ligar para pessoas indevidas. Recebi visitas no hospital quando fiquei internada com meningite, com direito inclusive a tráfico de achocolatado (item proibidíssimo de entrar no hospital) para o frigobar do meu quarto.

Deixei uma amiga pintar meu cabelo com papel crepom. Curei fossas em ombros amigos. Já fui até em show de Silvano Sales e de Joelma por ter certeza que na companhia dos meus amigos só podia ser bom – e foi. Teve aquelas férias que todas estavam solteiras e fomos pra praia todos os dias e pro carnaval até os pés pedirem penico. Teve a amiga que revisou meu tcc. As que me indicaram para estágios. A chefe que virou amiga de conversas pessoais e programas culturais.

Tem todo tipo de amigo. O que oferece os melhores conselhos. O que conta as piadas mais engraçadas. O que tem as dicas dos lugares descolados. O que não tem juízo e acaba fazendo você ter as melhores histórias. O que divide gordice com você. O que tem sempre alguém pra te apresentar. O que dá os melhores conselhos fashions. O que topa tudo.

Pra mim gente que topa tudo é o melhor tipo de amigo. Gosto de quem acha que a companhia vale mais que o programa em si. Gente que facilita ao invés de complicar. Gente com quem a gente pode rir e falar sério e ficar em silêncio e tagarelar e tudo flui naturalmente. Gente que faz a gente não sentir vergonha de ser quem a gente é e sim aceito e querido justamente por sermos quem somos. Gente que traz a garrafa quando é hora de comemorar e traz o colo quando o desânimo se apossa. Gente que ouve a gente falar a mesma coisa mil vezes. E apoia a gente. E não tem distância que separe.

Dizem que a gente fica muito parecido com as pessoas com quem mais convive, por isso é bom escolher bem pra poder se orgulhar de ir virando um pouco de todos os que queremos bem. Ainda acho que bem querer, companheirismo e gratidão são o melhor combustível para qualquer relação. E tem gente que, parodiando o Vinícius de Moraes, faz valer a arte do encontro mesmo havendo tanto desencontro pela vida. A esses deixo o meu muito obrigada.