Publicado em 7 de abril de 2016 Cultura, Destaques Manawee

Existe essa lenda afro-americana sobre Manawee, homem que cortejava duas irmãs gêmeas. O pai das moças disse que se o pretendente adivinhasse o nome delas ganharia sua permissão para que se casassem. Um dia o rapaz levou seu cachorrinho em uma dessas visitas e tendo fracassado novamente na tentativa de adivinhar o nome de suas desejadas voltou para a casa frustrado. O cachorrinho por sua vez ficou perto da casa das moças e pôde escutar uma conversa na qual elas se chamaram pelos seus nomes.

O cachorrinho mal podia acreditar em sua sorte! De posse de informação tão valiosa pôs-se a correr na direção da casa de seu dono para compartilhar sua descoberta, contudo ao entrar na floresta ele se deparou com um enorme osso ainda com carne que roubou toda sua atenção. Apenas após comer ele pensou em sua tarefa e deu-se conta de que havia esquecido o nome das irmãs! Voltou e novamente escutou e aguardou até ouvir elas se chamarem. Mais uma vez ao voltar para a floresta, porém o cachorrinho sentiu o aroma de noz-moscada e ora, não havia nada de que ele gostasse mais. Debruçou-se sobre a torta e novamente só se lembrou de sua missão quando a acabou. Infelizmente os nomes tinham novamente se esvaído de sua memória. E se mais alguém tivesse ouvido a confidência das irmãs e chegasse antes que Manawee para desposa-las?

O cachorrinho correu o mais rápido que pôde na direção da vila das damas e novamente pôde ouvi-las. Ele entrou na floresta pela terceira vez, decidido a compartilhar o que havia descoberto. Ignorou uma carne de caça com muita resignação. Ignorou um novo aroma de noz-moscada com muito esforço. No entanto, de maneira inesperada, foi pego pelo pescoço por um estranho que lhe exigiu que lhe dissesse os nomes. O cãozinho, quase sem ar, se sacudiu e mordeu e lutou com bravura para soltar-se. Quando ele enfim encontrou seu dono ele tinha os pelos sujos de sangue e as mandíbulas doloridas, porém os nomes estavam firmes em sua cabeça. De posse desse saber Manawee pôde casar-se com as donzelas e viveram em paz junto ao cãozinho.

Muitas lendas são formas de transmissão geracional de sabedorias e permitem várias leituras. No caso de “Manawee” acredito que caiba nos perguntarmos quantas vezes nos desconectamos do que realmente queremos e sendo seduzidos e envolvidos pelos prazeres rápidos que vão aparecendo no nosso caminho rumo a realização planejada bancamos o cãozinho de nossa própria história? Estamos decididos a emagrecer e dessa vez será para valer, pois nossa saúde está pelejando. Até o primeiro copo de cerveja. O primeiro chocolate. O primeiro pedaço do bolo. E assim esquecemos onde queríamos chegar. A meta é passar no concurso dos nossos sonhos. O plano é estudar x horas por dia. Até aquele convite para o cinema. Até o primeiro happy hour dos amigos. Até o sol estender-se sobre a areia da praia. A meta é achar alguém que a gente goste e com quem queira dividir a vida. Até a primeira tentação aparecer. Até a primeira briga irromper. Até o cansaço nos vencer. Buscamos o diploma. Até a primeira matéria chata. A primeira discussão no trabalho de grupo.

Às vezes parecemos fadados as nossas próprias repetições, especialmente se acreditarmos na existência do nosso próprio inconsciente. Vemo-nos como condenados a nos repetirmos inclusive no que nos machuca. Somos distraídos do que mais queremos pela velocidade das coisas que nos surgem, pela pressa de nos saciarmos, pela facilidade com que algumas coisas se apresentam em detrimento da dificuldade inerente a outras, pelo desafio de nos mantermos comprometidos com algo em tempos tão voláteis. Por outro lado – sim, há sempre o outro lado – será que não existe distração que valha a pena? Será que no degustar da torta de noz-moscada a gente não pode descobrir que quer mais tempo inclusive para ter outros desejos? Será que depois de tantos obstáculos a gente ainda quer o que desejava inicialmente ou estamos só bancando os teimosos para não parecer que desistimos?

O cãozinho nos mostra: há que se ter sabedoria para lidar com o tempo, ele é exclusivamente nosso e precisamos dispô-lo para nossa conveniência.  O cãozinho nos ensina: não podemos ter tudo, sempre há algo a ser perdido para que algo possa ser achado. O cãozinho nos pede paciência conosco, pois muitas vezes mesmo sabendo o que queremos nos atrapalharemos e precisaremos recomeçar. O cãozinho nos alerta: não temos controle da vida que nos cerca e muitas vezes teremos que lutar bravamente com suas intercorrências para nos mantermos no caminho que escolhemos. O cãozinho entrega o segredo do sonho: ouvir com atenção, para ir ou ficar.