Publicado em 5 de maio de 2016 Cultura, Destaques Hierarquias subjetivas

“Quando o cara vem com ‘sou super liberal mas’ eu já sinto ganas de dizer: querido, pare, se poupe, me poupe, nos poupe porque nada de bom pode vir depois disso aí” me disse uma amiga durante um dos nossos muitos papos sobre empoderamento feminino, sobre conhecermos e assumirmos os nossos quereres como sinônimos de poderes.

Mulheres (ainda) escutam muito discurso estruturado como manual de conduta, muito discurso que unifica o significado do significante: se você usou saia curta é porque queria provocar, se aceitou ir a casa dele era óbvio que você estava disponível para transar, se disser “opa, vamos sair de novo?” é porque “misturou as coisas” (deve ser por isso que se fala de química quando se fala de sentimento né? Haja elementos pra se misturar) e se apaixonou, se beijou é fácil, se não beijou é frígida, e sempre, sempre mesmo, está procurando um homem para chamar de seu.

Sim. 2016. Já queimamos uns sutiãs, escrevemos uns livros, votamos, fomos ao mercado de trabalho, vivemos a liberação sexual, ganhamos o direito de usar calças, nos candidatarmos a cargos políticos, não precisamos mais parir no chão da cozinha de casa e até ganhamos autorização pra gozar no sexo! Por que então que nos relacionamentos a dois – pelo menos na vertente heterossexual – ainda não conseguimos vencer a “hierarquia subjetiva”?

A Tati Bernardi tem um texto escrito quase uma década atrás (e ainda tão atual!) em que ela define que muitos homens ainda veem um encontro  como um livro de duas páginas, sendo a primeira a conquista (o primeiro beijo, a primeira transa) e a segunda o casamento, sendo que nós mulheres estaríamos usando nossos dons de “caça-marido” para aparecermos na casa deles no dia do baba parindo trigêmeos e espalhando vasos de flores na decoração.  Porque, lógico que não há como existir nada entre a primeira e a segunda página né? Cadê concatenar conceitos ao invés de polarizar? 2016 e a gente ainda reage com dificuldade a personagens mais complexos do que os gritantemente rotuláveis como “mocinhos” ou “vilões” logo na primeira vista.

Uma vez saí com um cara que se locomoveu da casa dele até o aeroporto para me buscar seis e trinta da manhã de uma segunda-feira depois de termos passado um feriadão separados fisicamente (mas nos falando por whatsapp) porque ele estava com saudade. Parece incrível (ironia mode on), mas eu não supus nem por um segundo que ele estava me pedindo pra namora-lo. Parece incrível, mas eu entendi que ele apenas tava com saudade depois de um tempo longe porque a gente vinha se entendendo de um jeito bacana.  Já dizia Freud que as vezes um charuto é apenas um charuto – nem tudo precisa significar um bocado de coisas.

Mas vai lá amiga, experimenta dizer para o cara que você tá saindo que você tá com saudade ou que gosta dele pra ver se ele não vai achar que você já tá prestes a o chamar no canto pra explicar que você acha que colocar rosas na decoração da igreja tá meio datado e que ele vai precisar cancelar aquele churrasco para ir escolher decoração com você.

Como já dizia Cazuza, vivemos  nesse “museu de grandes novidades”, certo? Então o discurso – cuja premissa segue a mesma lógica, não se iluda – assume uma nova vestimenta. É o cara sincero, bacana, que te diz que não quer te machucar. Sim, já ouvi esse canto da sereia até de caras muito descolados. Em resposta a isso, sempre tenho vontade de dizer: querido, senta aqui, vamos conversar. Sério, juro, não estamos todas tentando nos casar com vocês. Eu sei é surpreendente, mas dá pra acreditar que tem mulher que nem pensa em casar? Tem umas que tem como objetivo passar num concurso, morar fora, escrever um livro, ter uma barriga trincada. Até a pixar já produziu um filme infantil que mostra que as meninas podem pedir as suas próprias mãos, né Valente? Se aparecer alguém legal, pode ser que ela repense, mas não necessariamente, sabe? Eu sei que é difícil mas a terra gira em torno do sol e não do seu umbigo.

Você já cogitou a possibilidade de você não ser o único do rolo que está saindo com mais de uma pessoa simultaneamente? Sério, naquela quarta-feira que ela falou que ia dormir pode ser que ela tenha saído com outro cara. Parece que durante as mudanças de século em algum momento os pais pararam de oferecer dotes para que os homens aceitassem casar com suas filhas e as próprias moças começaram a ter o direito de escolher com quem queriam se relacionar e começaram a conhecer as possibilidades antes de escolher. Chocante, hein? É bastante improvável que você seja nesse momento o único cara que acha essa mulher interessante ou que a convide pra um happy hour. Acredite, há essa “mulher mutante” que não está tentando ir pra um happy hour eterno com você. Juro.

Por falar em ego, prossigamos com revelações bombásticas, é verdade, as mulheres não são o superman, mas você também não é. Todos sangramos. Todos nos machucamos. Eu me machuco todo dia por morar a 1.457 quilômetros de distância dos meus pais. Me machuco todo dia quando vejo uma criança pedindo esmola no sinal. Me machuco todo dia quando abro o jornal e vejo que alguém morreu na fila de um hospital esperando atendimento. Me machuco quando a burocracia de alguma coisa me oprime. Me machuco quando faço depilação. Me machuquei quando bati o carro em outros cinco numa tarde. Me machuquei quando o meu querido avô morreu.

E ops, tô aqui bem viva escrevendo esse texto. Inventaram o band aid. Inventaram o merthiolate que nem arde e nem pinta a gente de vermelho como o mercúrio de antigamente. A gente vai levando. A única garantia de não se machucar é ficar em casa vendo desenho animado, sabe? Porque viver machuca. E a maioria das pessoas gosta de pensar que ao ir somando anos no quinhão da vida deu algum significado. Machucados viram histórias. Não precisamos sair de casa pra ter apenas conversas de elevador. E isso não, não mesmo, é sinônimo de que estamos tentando achar um lar que nos permita sermos belas e recatadas. É que encontro é mais um caminho de aprendizado com o outro. Ou alguém discorda que é fácil estar no quarto sozinha e se anunciar paciente e é difícil efetivamente exercitar a paciência frente a alguém que está em dúvida, por exemplo?

 São apenas escolhas. Um beijo muito bom pode entrar pra nossa história como um beijo muito bom e ponto. Ou pode viver sendo um beijo muito bom que a gente troca mais vezes.  Não sei até que ponto adianta ficar tentando encaixar peças como se a vida fosse um imenso quebra cabeça cortado a laser que vai se encaixar com exatidão, que se a quer dizer b, que se 1 subentendo 2. Só faz o Los Hermanos e relaxa amigo, “deixa ser como será quando a gente se encontrar, eu vou sem me preocupar”, acho que assim todo mundo ganha.