Publicado em 1 de julho de 2015 Eventos Ladeira da Preguiça e outros DEScasos

O que a arquitetura significa para uma cidade e para um povo? São marcas de um tempo. Através de seu estilo, de seus materiais e de suas linhas de sua construção, podemos ler a história de um lugar. Arquitetura é mais do que apenas arte ou cálculos matemáticos: ela pode ser tão humana quanto a psicologia. Ela influencia nossos pensamentos, nossas sensações. É por isso que respeitar a memória arquitetônica é tão importante, pois temos a possibilidade de termos um museu a céu aberto. Essa é a importância do tombamento, para a perpetuação da história de um povo e para a manutenção de sua identidade cultural.

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Foto de Antonello Veneri.

Para Salvador, o que diríamos que representa a nossa identidade cultural? O Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Saúde (que se torna uma opção ao próprio Pelourinho), o Farol da Barra e os Fortes. Existem muitos outros, mas esses são os que vem a mente em primeiro lugar, já que esses são locais que tem uma importância histórica enorme para a cidade.

Mas e o que falar da Vitória? Antes completamente envolta por casarões do século XIX e hoje em dia ocorrendo esse processo de demolição em massa para substituí-los pelo que? Por prédios de luxo, restringindo o bairro a poucos, que nem ao menos se importam em pensar em modos de barlar o terrível sol que aquele lugar recebe ao seu se pôr. A Vitória, assim como o Centro Histórico, era a nossa identidade, contudo viemos perdendo-a para interesses do capital imobiliário, para prédios que não nos dizem nada e que não nos representam.

Esse processo vem ocorrendo em vários locais em Salvador, mas o que mais chamou a atenção recentemente foi o caso da Ladeira da Preguiça. A queda de um muro de um antigo casarão causou a morte de Oberdan Barbosa dos Santos e destruiu outras casas, deixando sete famílias desabrigadas. A decisão tomada foi a demolição do casarão e de mais dois do século XIX com a alegação de que os outros dois também corriam risco de desabamento. O que mais chocou foram as declarações das pessoas: “um bando de construção velha que nem se aguentava em pé e que só servia de prostíbulo e para esconder ladrão”. Casos semelhantes ocorreram na Ladeira da Montanha.

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Ladeira da Preguiça. Foto de Antonello Veneri.

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Foto por Antonello Veneri.

Retirando um trecho que li de um site sobre uma declaração de um morador da preguiça: “O poeta e professor de jiu-jitsu Marcelo Teles, morador da Preguiça e fundador do Centro Cultural Que Ladeira é Essa?, acha que as chuvas potencializaram um movimento que sempre existiu: o de tentar remover a população de baixa renda do centro. Informações desencontradas também estariam servindo como estímulo para tentar enfraquecer a comunidade: segundo ele, alguns moradores manifestaram interesse em vender suas casas, achando que elas serão desapropriadas.”

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Ladeira da Preguiça. Fotos por Antonello Veneri.

O problema nunca foram os casarões e nem as chuvas, mas o abandono sofrido por essas casas e pelos moradores, talvez até novamente pelo interesse do capital imobiliário ou pelo interesse na área como um local turístico. Nós não concordamos com isso e ninguém deveria.

Concluímos com a frase de Gabriel Cerqueira, da Preguiça. “Vamos resistir e continuar na luta. Vai ser assim – até a gente tombar”.

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Ladeira da Preguiça. Foto por Antonello Veneri.

Carolina Meireles

 


OBS.: Conheci as fotos do fotógrafo italiano Antonello Veneri através de uma entrevista sua ao Mosaico Baiano e desde esse momento fui fã do seu trabalho. Fico muito feliz por ter a oportunidade de usar fotos suas em um post. Sempre fotografou a Ladeira da Preguiça, pois soube de sua importância. Algumas fotos suas em protesto (da série “O Palhaço”) foram excluídas pelo Facebook e, principalmente por isso, foi o motivo por eu ter escolhido suas fotos para o nosso post. Nós aqui aprovamos a liberdade de expressão.

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Foto de Antonello Veneri.