Publicado em 19 de maio de 2016 Cultura, Destaques Hoje eu tô terrível

Semana passada o cantor sertanejo Lucas Lucco falou no programa de Fátima Bernardes sobre sua depressão e sua síndrome do pânico, problemas sérios que necessitam de tratamento. Sempre acho interessante quando pessoas que tem a repercussão da mídia falam de dores subjetivas, ajudando a desmistificar um pouco desse universo que por muitas vezes é ainda taxado como “frescura”.

Ele retomou essa pauta pois no fim de 2015 fez uma declaração em seu instagram justificando sua ausência em um show ao explicar que vinha se sentido triste e que estava tomando remédios para dormir, se manter calmo, etc. Na época algumas pessoas do meu facebook compartilharam a notícia com pesar e surpresa. O que me surpreende é que mais pessoas não cheguem ao ponto que Lucas chegou. Claro que ele se encontra em um extremo já que sua agenda de trabalho envolve diversas e constantes viagens, mas será que ele está assim tão distante da realidade da maioria de nós?

Nosso zeitgest valoriza e valida dois discursos por muitas vezes incompatíveis. O capitalismo justifica nossa constante “falta de tempo”. Pense bem, quando foi a última vez que você disse que estava ocupado demais ou que estava muito corrido para justificar alguma ausência? Precisamos ser produtivos, estar ocupados nos insere no “mundo adulto” e quanto mais ocupados mais descolados nos tornamos e mais importantes e dignos de credibilidade e respeito na ótica do outro. Não estou entrando no mérito do valor subjetivo do trabalho, não estou negando a importância de seu valor constitutivo ou a necessidade de sustento (que considero de suma importância, inclusive).

Quantas vezes ao ser indagado sobre o que você faz da vida você se viu reduzindo a resposta a dizer com o que você trabalha? E se tentou sair da lógica ao responder a pergunta, recebeu uma cara confusa de quem havia perguntado?  Se não nos mantivermos atentos podemos colocar a ideia de “bem sucedidos” através do trabalho, da nossa sociedade capitalista, como objeto de nosso gozo, algumas vezes só mais tarde percebendo que há dor no gozar também, como a coceira que alivia mas se persistida também pode ferir…

Ao estar excessivamente no trabalho, estamos limitadamente aonde? Se toda nossa energia é dedicada a um estímulo, o que entregamos aos outros? O que temos oferecido de tempo, entrega ou presença as outras searas de nossa vida, como família, amigos, lazer, hobbys, romance? Lucas ganha rios de dinheiro, diz gostar de cantar e de atuar e sente saudade de suas avós – porque uma necessidade não pode suprir outra, porque uma realização não aplaca vontades insurgentes, porque somos complexos e desejantes de forma múltipla. Esse cara pode ter milhares de fãs gritando seu nome e ainda assim sentir o quanto está sozinho.

Por outro lado nossa sociedade vende e compra a ideia de dar visibilidade a nossos prazeres, coisa que as redes sociais facilitaram enormemente. Quem nunca abriu a página de alguém e sentiu inveja da foto na praia, da festa ou da boa companhia? O que o relato de Lucas nos lembra é que há sempre muito mais por detrás do recorte da foto – só vemos partes, não alcançamos o todo. Ele, jovem, bonito, desejado, canta sobre curtir, beber, beijar, dançar e exibir tudo isso em festas de grandes proporções enquanto nos confessa que em seu dia a dia se sente triste e não consegue dormir.

Entendo que a dicotomia das letras de suas músicas em contraponto ao seu discurso no instagram nos surpreenda, mas pensemos além: somos todos tão felizes quanto queremos crer e vender? Até quem vende essa falácia foi acometido de doses de realidade. Quem sorri na foto da praia não tem problemas no trabalho? Não é possível que estejamos na festa bebendo, mas com o pensamento lá em alguém que dói? Deve ser, afinal essa é também premissa de muitas canções sertanejas de sucesso. Nossas escolhas impõem seus preços e assim vamos pagando. Algumas vezes de forma consciente, outras de modo inconsciente.

Vivendo nesse contexto de excessos que nos exige produzir e consumir constantemente (não só produtos mas também momentos e pessoas) encontraremos nas prateleiras verdadeiros manuais sobre como encarar a solidão, superar a saudade, lidar com os problemas ou toda sorte de acontecimento. E todos irão falhar em suas propostas. Não há mapa para o sofrimento. Não há paradeiro para o desejo. Não existe receita para a felicidade. Doenças psíquicas não são frescura. Tentar achar algo que fique em tempos que tudo se esvai (inclusive o cantor sertanejo de mais sucesso na rodada) pode ser um caminho, nem que seja que a gente se fique, principalmente no nosso tempo, autores dos significados de nossas histórias. Nem que seja pra que a gente tenha tempo de se olhar e de se escutar. Parar, apenas.

É como desabafa o Lucas quando diz que tem um ano que não vê a avó e sabe que ela não vai estar aqui para sempre e que isso sempre martela em sua cabeça – mas somos tão empurrados pelo fluxo que muitas vezes as coisas ficam só na teoria – ou não sabemos que podemos estar economizando vida para um futuro que não nos chegará? Ou saber que a avó não estará aqui já é o mesmo que se deslocar para estar em sua companhia?

Algumas coisas talvez ajudem a clarear nossa mente por permitir que entremos em contato com a gente mesmo – silêncio, colo, artes, terapia, prática esportiva? – no mais viver é dançar no escuro e tentar aproveitar a música ainda assim. Não tem jeito, tem dias que a gente tá terrível mesmo, Lucas.

– Se você sente apatia, tristeza, excesso ou falta de sono, desesperança com relação ao futuro, extrema dificuldade na realização de tarefas simples de autocuidado como tomar banho, aperto no peito, falta de ar, sensação eminente de que está morrendo não hesite em procurar um psicólogo ou psiquiatra, eles podem te ajudar a passar por isso com mais conforto!