Publicado em 26 de maio de 2016 Cultura, Destaques É perguntando que se faz o caminho

Já no final do excelente “Conspiração e poder” um dos personagens pergunta a XXX por que razão ele escolheu ser jornalista, ao que ele responde: eu sempre quis fazer as perguntas. Fiquei com isso na cabeça um bom tempo.

No segundo ano do ensino médio fiz orientação profissional. As opções que me pareciam plausíveis eram o direito, o jornalismo e a psicologia. Ok, são três cursos de humanas em que se lê e se escreve bastante, mas são também e acima de tudo, cursos em que o saber perguntar é útil.

Eu, a menina que lia muito desde sempre e que foi filha única dezesseis anos, brincando no meio da conversa dos adultos, fui parar na faculdade de jornalismo. Só aí eu entendi que mesmo entre as perguntas existiam diferenças. Perguntas pequenas, grandes, importantes, perguntas que todo mundo quer fazer e as que todos queriam poder evitar. Descobri que a maioria das perguntas dos jornalistas eram exteriores: esmiuçar fatos, coletar informações, preencher espaços. Perguntas extrovertidas, sobre coisas que aconteceram, como aconteceram, em quê implicavam, etc. Percebi que aquelas perguntas não me interessavam tanto. Eu tinha urgência de pequenezas.

Fui fazer psicologia. Aceitei que eu me sentia atraída pelas perguntas pequenas, as muito simples, que eu batizei de perguntas introvertidas porque, por mais que dissessem respeito as coisas de fora, eram sempre feitas a partir da leitura de dentro. Muito mais do que ouvir a história dos índices de desemprego e fazer perguntas sobre ela, eu queria saber como o desemprego chegava para Maria, como José se sentia frente a ele, o que Pedro pensava disso e como Ana estava se virando. A coisa é sempre a coisa – as pessoas frente as coisas são as mais diversas possíveis, por mais parecidas que sejam.

Dentro da minha trajetória de formação profissional perguntar era a coisa mais usual. Fosse na escola como acompanhante terapêutica de processo de aprendizagem de crianças com autismo, fosse no rh selecionando pessoas para trabalhar na empresa ou fosse na clínica – saber o que e como perguntar era tão essencial quanto me interessar pela resposta.  Aliás, mais do que pela resposta, mas pela lógica que organiza a resposta. A resposta em si não é nada, ela encerra, a forma como ela se constrói é que desvela o que se passa, como se pensa, por onde se caminhou até se chegar ali.

 A maior parte das minhas perguntas e respostas profissionais exige sigilo. São coisas sobre as quais não posso conversar embora sejam as mais cotidianas possíveis. De vez em quando lateja a ferida de ter escolhido a vida humana como material de interesse porque tudo se mistura, inclusive a forma que as pessoas me veem. Meu amigo engenheiro ao estudar sobre bases de sustentação de pontes ou meu amigo enfermeiro ao estudar sobre suporte avançado de vida estão ampliando seus horizontes. Eu nado sempre na mesma água misturada: entre um inconsciente e outro, textos sobre ciclo de vida, relacionamentos, família, adoecimentos, mundo do trabalho. Meus interesses profissionais navegam minha vida pessoal, sendo eu uma pessoa que estuda outras pessoas. Monotemática, alguns me acusam, mas como poderia ser de outra maneira?

Durante o caminho as conclusões deixaram de me parecer tão interessantes. Os livros que vendem receitas me dão calafrios. Perguntar virou um hábito. Muitas vezes me pediam um posicionamento em algumas situações e eu só tinha perguntas a oferecer. Tantas vezes é inútil ter certeza. Quando eu não sei, quero saber e posso procurar as mais variadas fontes. Quando eu acho que já sei o dialogo está encerrado, engessado, resolvido. Só posso interagir com as perguntas, sejam elas quais forem, políticas, econômicas, sociais, culturais, pessoais.

Por um lado, contudo, ter respostas parece seguro. Constrói muros que nos deixam protegidos – eu sei como eu sou, eu sei como o mundo funciona, eu entendo o que está acontecendo na política brasileira nesse momento, eu sei como agir para ser feliz, tudo isso indica controle. Já olhar pra si e perguntar:” como eu me sinto com relação a isso? O que eu penso? O que eu penso de quem defende coisas diferentes de mim? Porque as coisas acontecem desse jeito? Como eu vou ser feliz? Eu vou ser feliz?” é caminhar sem mapa, é aceitar que perguntando se faz o caminho sabendo que as surpresas podem compensar.