Publicado em 28 de julho de 2016 Cultura, Destaques Do outro lado há sempre uma pessoa

A gente nunca consegue contemplar o todo, o que faz com que a gente fragmente a realidade a fim de dar conta dela. Assim nascem alguns rótulos, a menina de óculos, o gordinho, a moça da cadeira de rodas, o careca ou o malhadinho. É claro, contudo que essas pessoas não são apenas isso que escolhemos como características – que são apenas pequenos peixes que enredamos em nossa pescaria, mas que não são toda a natureza profunda que compõem a idiossincrasia de cada individuo.

Talvez por isso eu sempre tenha gostado quando o Herbert Vianna cantava em “Óculos”: por trás dessa lente tem um cara legal ou por trás dessa lente também bate um coração. Soube que hoje em dia ele canta “roda” no lugar de “lente” e eu hoje quero cantar “tela”.

Sim, passamos muito do nosso tempo em frente a telas, especialmente de computador ou de celular. Não, não sou dessas pessoas de discurso anti-tecnologia. Pra mim todavia o caminho da tecnologia é o caminho da mediação – por exemplo, acabei de me mudar e continuo falando todos os dias com as pessoas da minha vida da mesma maneira ainda que no mapa estejamos ocupando agora espaços físicos tão diferentes. A tecnologia é o instrumento que permite que aqueles que estão ausentes se façam presentes. Percebo porém – e me preocupo – que pela solidão física dos momentos em que passamos na frente da ela, estamos nos esquecendo de colocar empatia no caldo que estamos entornando.

A palavra empatia está na moda, até. Pipocando em vários textos na internet. É sinônimo de se colocar no lugar do outro – exercício que não é fácil nem na vida real, primeiro porque tendemos a ser egocentrados e segundo porque na maior parte do tempo funcionamos na lógica de “não fazer com o outro o que não queremos que nos façam”, que é de origem teórica bacaninha, mas de prática questionável. O outro é um mundo a parte e só compreendendo que tem sua subjetividade intransferível é que posso me colocar no seu lugar. Só percebendo-o posso tentar perceber o mundo através do seu ponto de vista. Se esse exercício é difícil quando estamos frente a frente, o que dizer sobre ele quando a tela nos separa, fazendo com que as vezes a gente esqueça que tem outra pessoa do outro lado?

Exemplifico: um amigo muito querido, que vou chamar de H. viu sua arroba do twitter marcada numa publicação de um rapaz (A.) indicando a outro (B.) que desse uma olhada em seu perfil já que o outro (B.) tinha uma queda por rapazes carecas.  B. respondia a A. em um tweet marcando meu amigo H. que ele gostava de carecas e não de aberrações.

Peraê, meu amigo que estava lá na santa paz da casa dele de repente estava marcado na publicação de uns caras que ele nunca tinha visto e para os quais ele não tinha pedido a opinião sobre seu visual e estava sendo ofendido? Surreal mas verídico. Quando foi que a gente, estando naquela roda de fofoca falando da roupa das pessoas, por exemplo, chamou alguma delas, colocou no meio da roda e aí disse que odiou a calça dela e que ela era sem noção de tão brega? Nunca, né? Mas parece que se tiver uma tela no meio a gente acha que tá tudo bem, tudo liberado, pega nada. Só que não tá. Porque do outro lado da tela ainda tem uma pessoa, mesmo que a gente não veja…

Basta abrir caixa de comentários de portal de notícias que a gente vê a barbárie. Comentário ofendendo Deus e o mundo, racista, homofóbico, misógino etc etc etc. A mesma tela que é escudo de proteção para alguns é faca afiada para outros. Realmente me questiono se essas pessoas que digitam tão corajosamente seus preconceitos e ofensas assim o fazem fora da mediação da tela. Será?

Pra mim a lógica é oposta. Se a tela tira a possibilidade de qualquer leitura corporal ou de entonação, há que se ter ainda mais cuidado com o que se diz e com a forma de dizê-lo. A tecnologia é um elemento e por si só não merece ter caráter valorativo atribuído fora do uso que cada usuário fizer dela.

Só que se a gente continuar usando-a como desculpa para ser grosseiro, bossal, babaca ou desnecessário vai ficar cada vez mais fácil a gente se aproximar da realidade dos filmes Her ou Ex-Machina e passar a achar mais fácil conviver diretamente com as maquinas do que com as outras pessoas, ainda que através das maquinas. O que seria uma perda, né?