Publicado em 21 de dezembro de 2015 Cultura, Destaques Dica de livros

Assim como na célebre frase de Fernando Pessoa, “Viajar é preciso”, acredito também que “Ler é preciso”. Uma leitura envolvente tem esse poder de realmente nos transportar para lugares, conhecer novas pessoas e culturas, e de nos colocar no lugar do outro (já que nos reconhecemos nos personagens e sentimos através dele).

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Esse ano, enfrentei uma abstinência cruel de livros devido tanto à falta de tempo quanto à falta de opção. Eu entrava nas livrarias e, não conseguindo me identificar com algum livro, saia de mãos vazias. No entanto, nesse fim de ano houve alguns lançamentos super interessantes e que eu gostaria de comentar com vocês. Vamos a nossa lista?

Memória da água

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Primeiro livro de Emmi Itäranta, escritora finlandesa finalista do Philip K. Dick Award, esse livro é diferente de tudo que já li. Em uma leitura rasa, pode se tratar de mais um que fala sobre um futuro escasso de água, comida e matérias-primas, mas ele passa bem longe disso. Ele realmente convida a reflexão através de uma linguagem poética e personagens curiosos. Logo em seu primeiro capítulo, o livro começa com as seguintes palavras:

“As águas mudam conforme a lua, abraçam a terra, não têm medo de morrer no fogo ou viver no ar. Entre na água de leve e sentirá um toque tão doce que quase se confunde com a pele. Mas choque-se contra ela e a água o quebrará em pedaços. […] A morte é a amiga íntima da água. Não dá para separá-las, e também não é possível afastá-las das nossas vidas, porque representam, no sentido último, aquilo de que somos feitos: a versatilidade da água e a opressão da morte. A água não têm começo nem fim, e a morte tem ambos. A morte é o começo e o fim.”

O livro se passa em um futuro pós-guerras em que a Europa foi dominada pela China e a água passa a ser controlada e distribuída em cotas pelos militares. É nesse contexto que vive Noria, filha de um mestre do chá, e que está treinando para substituí-lo em sua profissão. Com isso, o pai lhe revela a localização de uma das nascentes de água, conhecimento que todo mestre do chá precisa ter, mas que, diante da situação atual, é algo que precisa ser mantido em segredo. Contudo, também devido ao momento em que se encontram, Noria passa a questionar o porquê desse privilégio quando tantas famílias também precisavam de água. Dessa forma, ela tem que escolher entre ajudar a população e colocar em risco a sua própria vida ou manter o segredo e a tradição de mestre do chá.

Não é um livro de emoções fortes, aventuras, imediatismos. Possui uma história bem construída e seu roteiro se apresenta quase como se flutuássemos na água e seguíssemos seu fluxo, o que me lembra muito o modo de pensar chinês e seus provérbios. Culturas diferentes sempre me encantaram e por isso que fiquei fascinada com os elementos apresentados na história e sobre os deveres e a arte de ser um mestre do chá. É um livro encantador, vale à pena a leitura.

OBS.: Memória da água, em homeopatia, refere-se a suposta capacidade da água de reter substâncias que nela estiveram diluídas, mas não encontram-se mais ali. Fazendo um paralelo a história do livro, o título foi muito bem escolhido. A água existe no mundo desde antes dos seres humanos e foi ela um dos condicionantes para a existência de vida na Terra. Ela presenciou e ainda presencia a história da Terra e de seus seres vivos e a transmite as gerações seguintes. Ela guarda segredos e mistérios e, por isso, ela é o próprio mistério. Apesar disso, ela é transparente, límpida. Essa é uma reflexão que até o próprio livro nos proporciona!


A irmã da tempestade

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Segundo livro da série “As Setes Irmãs”, esperei esse livro ansiosamente. É de autoria de Lucinda Riley, que ultimamente vem emplacando seus livros de romance e construindo um nome. Particularmente, sou fã deles e poderia recomendar facilmente “A Casa das Orquídeas” ou “A Rosa da Meia-Noite”, que são livros igualmente maravilhosos. Mas vamos ao livro da vez.

“As Sete Irmãs” retrata a história de seis garotas que foram adotadas desde crianças por um homem de passado misterioso, cujo nome é nos apresentado como Pa Salt. Amante de constelações, ele deu o nome de cada uma de suas filhas o de uma estrela das plêiades, grupo de sete estrelas da constelação de touro. No primeiro livro, que conta a história de Maia, ela pergunta ao pai durante a infância porque ele nunca adotou a sétima filha, ao qual ele responde que nunca a encontrou, mostrando que ele as adotou de caso pensado. Em sua morte, ele deixou cartas para as meninas que possuíam pistas para as suas origens e a partir disso, temos o desenrolar da história de cada uma das meninas ao mesmo tempo que nos aproximamos descoberta de quem era Pa Salt.

Enquanto o primeiro livro levou a personagem ao Rio de Janeiro (o que me deixou encantada, pois ver o Brasil e uma parte da história do nosso país em um livro de ficção internacional, é realmente muito bom), o segundo livro da série, “A irmã da tempestade – A história de Ally”, nos transporta para a Noruega. Dessa vez, as relações com o passado da personagem são com uma cantora chamada Anna Landvik, que participou de uma das obras mais famosas do compositor Edvard Grieg.

O que é característica dessa série é que cada irmã pertence à um país do mundo e tem alguma relação com personalidades icônicas desses países. Lucinda Riley consegue misturar ficção e realidade histórica com maestria, em um roteiro que prende a atenção até o fim e nos deixa com gostinho de quero mais pelo próximo.


 

Memórias de uma Gueixa

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Admito que cheguei ao livro pelo filme dessa vez. Memórias de uma Gueixa foi um filme que me marcou, pois foi um dos meus primeiros contatos com uma cultura tão diferente da nossa. Quando assisti, ainda nova, tiveram coisas que não compreendi e que busquei entender a partir dele. Assim, quando assisti de novo, tive certeza de que precisa ler o livro. Não é um lançamento, contudo eu nunca encontrava esse livro disponível nas livrarias até a semana passada.

Ele conta a história de Sayuri, uma gueixa famosa em Kioto no Japão, que passou por diversas dificuldades até chegar onde estava. Quando criança, e ainda se chamava Chiyo, morava em um pequeno vilarejo com seus pais e sua irmã. Após a morte de sua mãe, seu pai decide vender ela e sua irmã como escravas a partir da justificativa de que passava por dificuldades financeiras. Elas tiveram destinos diferentes, sendo que Chiyo foi trabalhar como uma criada em uma okyia (casa de gueixas) da cidade. Com uma vida difícil e com poucas chances de encontrar a irmã, é nesse momento que ela conhece e se apaixona por um homem, a única pessoa que foi gentil com ela em meio ao caos. A partir disso, Chiyo passa a ter um objetivo: se tornar a melhor gueixa de Kioto e reencontrar o homem pelo qual se apaixonou.

O livro é um romance dramático, contudo também retrata um momento histórico importante que é o antes, durante e o depois da Segunda Guerra Mundial e suas implicações no Japão (e no próprio direcionamento dos personagens). Também mostra a vida das gueixas, profissão que até hoje permeia um certo mistério tanto na cultura oriental quanto na ocidental. A história é linda e é quase um clássico.


 

A Rainha Vermelha

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Voltando a falar sobre os lançamentos, temos A Rainha Vermelha. O livro conta a história de um mundo dividido pelo sangue: vermelho pertencente aos plebeus e o prateado, da elite. A elite consegue manter o status devido aos seus poderes sobrenaturais, o que também os caracteriza como elite. Contudo, Mare, uma menina de origem plebeia, consegue um trabalho no palácio real e lá descobre que também possui poderes sobrenaturais. Para que ninguém descubra que uma plebeia possui poderes como a elite, o Rei a obriga a assumir o papel de uma nobre de casa extinta. Convivendo com a elite, Mare passa a descobrir os segredos por trás dela.

A personagem principal é o ponto forte desse livro. Determinada, forte e com personalidade, ela está ali para cumprir seus objetivos, não se deixando seduzir pelo poder e pelo ambiente em que vive. Suas escolhas são muitas vezes questionáveis, mas são feitas somente por ela. A história também é interessante por deixar o romance em segundo plano e destacar as injustiças por trás desse sistema. O livro está em primeiro lugar na lista do New York Times e os direitos para cinema já foram adquiridos pela Universal.


Gostaram das dicas de livros? São ótimas opções de presente de natal também! Se vocês já leram algum desses, se vocês esperam ler algum desses ou se vocês conhecem alguns dos autores, compartilhem suas opiniões com a gente!

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Encerro o post com um dos meus quotes preferidos sobre livros, retirado de Sangue de Tinta (da série “Coração de Tinta”):

“As histórias nunca têm fim, Meggie”, ele lhe dissera uma vez, “embora os livros gostem de nos enganar a esse respeito. As histórias sempre continuam, não terminam com a última frase, assim como não começam com a primeira.”

Beijos,

Carolina.