Publicado em 9 de junho de 2016 Uncategorized Dia dos namorados

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” Sempre gostei dessa frase do Guimarães Rosa mas esse mês, após ler cinco livros que exploravam a temática dos relacionamentos comecei a enxerga-la de outra maneira e até querer abrir um parêntese nela.

Em “Queria fazer você feliz”, Adriana Falcão nos conta a história real do relacionamento de seus pais, Caio e Maria Lúcia, através das cartas que trocaram e colocando o amor como narrador. No clássico “A insustentável leveza do ser” acompanhamos a trajetória do casal Thomas e Teresa. “As vantagens de ser invisível” nos faz conhecer Charlie, um adolescente descobrindo a vida e suas possibilidades. Em “Tá todo mundo mal” Jout Jout fala de crises em que quase sempre os relacionamentos e seus temores aparecem como motivação. Por fim, em “Homens, mulheres e crianças” mergulhamos nas idiossincrasias de diversos personagens nas suas vivências românticas e, principalmente, na ordem de seus desejos sexuais. Esses livros tem em comum, além do debruçar sobre encontros amorosos, uma pitada de “doença” (como sinônimo de ausência de saúde) e uma imersão na “loucura” (como sinônimo de não-inserção na ordem vigente). Nacionais, internacionais, modernos ou antigo, em alguma medida sempre nos aproximamos.

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor”. Jout Jout na primeira ficada com o Caio já foi o convidando para na semana seguinte viajarem juntos para Paraty, Caio aceitou o convite. Teresa tem pesadelos com as traições de Thomas e o próprio segura suas mãos, na cama, para acalmá-la. Thomas trai Teresa. Maria Lúcia é internada no hospital psiquiátrico. Caio tenta se suicidar. Teresa e Thomas ficam juntos até o fim da vida, na ficção. Maria Lúcia e Caio ficam juntos até o fim da vida, na realidade. Qualquer um que não tenha amor já teria ido embora. Nenhuma dessas pessoas está na lista de “perfeitas” para a gente conhecer, consigo facilmente imaginar um amigo ajuizado que nos quer bem nos aconselhando a fugir enquanto é tempo porque isso vai acabar em problema – e muito provavelmente ele tem razão. Qualquer um que aceite ficar perto do outro conhecendo-o, só pode fazer se tiver amor. Com um pouquinho de ódio, só um pouquinho, não dá pra ficar perto de quem torce pra outro time, tem convicções políticas divergentes, uma religião diferente ou até mesmo um tom de pele diverso. São tempos em que o ódio parece ter mais público, mais ramos e  dar mais frutos que o amor.

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. É aqui, Seu Guimarães, que alguns dos meus livros colocaram uma pulga atrás da orelha. Veja, eu sou dessas pessoas que insistem em ver beleza no que é feio, teimam em se interessar pelo que tem arestas e se furam nos espinhos para colher as flores. E mesmo assim essa ideia de “qualquer amor” não dá. Não, juro, não é arrogância. Eu sei, temos sido arrogantes sim, sempre achamos que merecemos tudo de bom, que não precisamos de pessoas que sejam assim ou assado – mas ops, queremos sempre ser aceitos com inteireza, com nossos defeitos, fraquezas, medos e anseios. Nós merecemos, o outro quase sempre não. Quando fulano tá sem emprego e isso faz com que eu saia menos, é hora de dar tchau pra fulano porque eu não mereço nem preciso disso, mas se sou eu o sem emprego, é só uma fase e eu quero apoio. Quando fulano tá com problemas sérios ele está sugando minhas energias e eu não posso ser responsável por ninguém, quando eu estou com problemas sérios quero ter com quem conversar e no colo de quem repousar. Já vi casais recém-casados se separarem porque na doença, pasmem, no internamento hospitalar, a mulher não podia dormir com o marido. Você mesmo já disse: pra viver perto do outro há de ser preciso amor além do amor-próprio.

Mas desculpe, Seu Guimarães, na minha tagarelice acabei fugindo do assunto. Eu sei que somos arrogantes e muitas vezes só queremos o “venha a nós”, esquecendo que somos todos pessoas e falharemos inevitavelmente em todas as nossas relações. Ainda assim, “qualquer” não vai dar. Um amor que violente, por exemplo, não vale a pena, entende? Não gosto de apontar dedos, de distribuir culpas ou de dizer como as coisas deveriam ser, já aprendi que as coisas são todas teimosas e são sempre como querem, cobertas de mistério, rindo de nossa atrapalhação. Amor nem sempre é sinônimo de saúde. E nem sempre faz a loucura descansar. O amor de Thomas adoecia Teresa. O amor de Caio e Maria Lúcia potencializava a loucura de cada um. Charlie foi amado com doença e loucura. A gente pensa que o amor é sempre bom mas a verdade é que nem sempre ele faz bem, embora eu acredite que ainda assim ele seja amor.

Na vontade de chamar atenção do Caio a Maria Lúcia se queimou com álcool. Na vontade de ficar perto de Teresa o Thomas voltou para uma zona de guerra. Não vejo “saúde”. Não vejo “descanso”. Mas a vida é sequência e não uma cena só, não é? Então, o Caio e a Maria Lúcia tiveram três filhas. Trocaram cartas lindas. Morreram de saudade nas distâncias. Arderam nas presenças – a julgar pelo conteúdo de algumas cartas. O Thomas e a Teresa foram confidentes, amantes e parceiros de uma vida. Se uma coisa paga a outra nem adianta você me perguntar pois como eu disse não estou aqui para avaliar e honestamente não tenho o menor interesse nisso. Teimo em achar que o caminho de cada um só pode ser andado com seus próprios sapatos e portanto só pode ser compreendido de dentro.

Antes de julgar, inclusive, eu pensei: e se dispor a amar alguém que mora em outra cidade e encarar viagens periódicas para estar junto? E pegar celular escondido pra fazer inspeção em rede social? E gastar dinheiro e energia pra realizar as vontades de alguém? E se vingar de uma chateação colocando pimenta no temaki alheio (juro solenemente que essa história é verídica)? E declaração de amor em público? Tudo isso não pode ser considerado loucura? E ficar com insônia ou dor de barriga depois de uma briga? E chorar até ficar cansada por não saber se tudo vai se encaixar? E achar que não vai conseguir ser feliz se aquela pessoa não te pedir em namoro ou não te levar pra tomar um vinho no sábado? E se perguntar se tem algo de errado com você pra ela nunca te levar pra conhecer os amigos e a família? Tudo isso pode ser considerado saúde?

Na terça em que bateram no meu carro e eu achei que ninguém se importava o suficiente para que eu contasse ou toda vez que pego meu celular e me frustro por não ter recebido uma mensagem de bom dia do meu paquerinha eu me pego pensando que muitas vezes a gente se rende a fantasia pra fugir da dureza do real mas não foi o caso com esses quatro livros que li em Maio. Eles foram duros porque reais, porque palpáveis, porque possíveis. Porque nada, nem mesmo o amor, pode ser só bonito, mesmo que não se encaixe nas nossas definições de doente nem louco e porque querer dizer como as coisas devem ser só traz mesmo frustração – e talvez daqui advenham muitos medos, pois na nossa mente pode ser tudo só bonito afinal. Meu desejo para todos nesse dia dos namorados, portanto, é que seja possível se satisfazer com as escolhas feitas no real. Que seja possível que a rotina não seja sempre necessariamente ruim. Que o cotidiano pareça valer a pena. Que você goste de calçar seus sapatos. Que tenha alguém que genuinamente você queira encontrar no fim do seu dia. Que haja sempre pelo menos um pouquinho de amor, por favor.