Publicado em 8 de setembro de 2016 Cultura, Destaques Controle é ilusão.

Levantar da cama parece impossível. O corpo todo dói como se tivesse levado uma surra na noite anterior. Sim, a doença mais enigmática da medicina moderna chegou no pedaço: virose. Não interessa se hoje havia reunião no trabalho, se hoje tinha aquele happy hour marcado ou ainda aquele encontro especial. O corpo precisa de repouso e já arranjou seu jeito de garantir que suas necessidades serão ouvidas. Quase dois mil e dezessete e uma simples virose muda todo seu planejamento.

Três dias sem ir ao banheiro. A barriga estufada e a sensação incômoda.  Come ameixa. Come mamão. Toma aquele iogurte que promete ajudar. Apela pros remédios e nada. Quase dois mil e dezessete e ainda não é você que controla que horas seu organismo vai expelir os excrementos.

Coloca o pijama, calça a meia e deita na cama, cansado. Luz apagada. Se dormir agora vai ter sete horas e treze minutos de descanso. Acha a posição mais confortável. E a cabeça segue um fluxo ininterrupto que nem mais os ansiolíticos estão conseguindo silenciar. Mais uma madrugada insone pra conta. Quase dois mil e dezessete e seu corpo teima em não te obedecer.

Copérnico deu o primeiro golpe: não, homem, o sol não gira ao seu redor, você que gira ao redor dele. Darwin deu o segundo: não, homem, você não é a criação mais especial de Deus, enviada para reinar sobre outras espécies e sim resultado de um processo evolutivo adaptativo, como tantas outras espécies. Freud cravou o último golpe: não homem, você é sequer senhor de si, pois em sua mente que você julga que governa existe algo chamado inconsciente que te rege e que você ignora.

Os três parágrafos anteriores nos lembram que além disso tudo, por mais que possamos ultrapassar alguns de nossos limites físicos (como no caso de atletas olímpicos e paraolímpicos, por exemplo)  não governamos nossos processos corporais. Não temos controle sequer sobre o que acontece conosco – mente e corpo.

E ainda assim queremos dizer onde e quando vamos ser felizes. Com quantos anos iremos realizar o objetivo x. Quando poderemos conhecer e nos envolver com a pessoa “certa”. Como nós e os outros devem reagir as coisas, onde e quando pode-se ou deve-se ficar triste e onde e quando pode e deve-se esbanjar alegria e até mesmo de que forma cada um deve conduzir sua trajetória de vida., chegando até a dizer que muitas das doenças ligadas a saúde mental são da ordem da “frescura” ou da “falta de força de vontade”.

Ainda assim queremos escolher de quem gostamos e como gostaremos. E como esses seres que gostamos em especial existirão no mundo a partir do momento do nosso encontro: não, ele não precisa mais jogar bola com os amigos, não, ela não deve mais usar minissaia, não,  não pode mais conversar com a pessoa y ou não deve sair sem me prestar contas pois assim posso ficar sossegado que nada do que eu não desejo poderá acontecer. O ciúme é mesmo uma das maiores ilusões de controle, não é? Como se o outro fosse um fenômeno que se colocado dentro das condições perfeitas (de isolamento e vigilância, no caso) trouxesse os resultados esperados.

É duro pensar que somos pessoas soltas numa bola que gira em torno de uma estrela muito quente em um universo gigantesco. Chegamos aqui sem decidir que assim seria e a maioria de nós vai embora sem decidir quando isso acontecerá – ainda assim, no intervalo de tudo isso, consumimos vorazmente as pequenas ilusões de controle e certeza que nos são apresentadas.

Como ser mais produtivo, como resolver melhor os conflitos, como nunca mais brochar, como construir o relacionamento perfeito, como ser feliz com o seu corpo, como conquistar aquela pessoa especial, como ter o emprego dos sonhos – manuais que devoramos acreditando que nos conduzirão ao sucesso sem nos darmos conta de estarmos enclausurando todas as infinitas variações de resposta dentro de engessadas respostas prontas que parecem possíveis de serem controladas.

Gosto de olhar pra minha gripe, pra minha insônia e até pra minha prisão de ventre e lembrar humildemente da ingovernabilidade das coisas que vão compondo minha rotina. Assim exijo menos de mim, menos dos outros, menos da vida. Assim lido melhor com as minhas expectativas frustradas e com as surpresas do caminho. E não, essa não é uma forma de me desresponsabilizar pelas minhas palavras e atos. É como diz o poeminha,  que infelizmente desconheço a autoria: “as coisas não acontecem como a gente quer ; nem mesmo como a gente não quer ; as coisas nunca pedem nossa opinião”. Ou como diz a canção: amanhã pode acontecer tudo inclusive nada. Isso pode ser benção, realidade ou tortura. Vai depender de como a gente decida encarar – e isso sempre, sempre, pode ser revisto.