Publicado em 25 de agosto de 2016 Cultura, Destaques Cheiro de sabonete

Eu saio do banho com cheiro do seu sabonete e adoro essa sensação. Adoro esse seu banheiro metodicamente arrumado. Na frente do seu prédio tem uma fila enorme para entrar na discoteca do outro lado da rua e eu me vejo bisbilhotando aquelas interações pela janela – como aquelas pessoas se encontram, hein? Seu sabonete é tão cheiroso e a gente tá tão protegido aqui dentro que lá fora todo mundo parece sujo. Pareço tão limpa com o seu cheiro que não sinto o cheiro da minha dor ou do meu ciúme.

Olho pra você sentado na poltrona enquanto encho minha taça e você sorri pra mim e estende a mão e me pergunta se eu estou bem. E eu tenho vontade de responder que vou estar bem se você deixar eu me afogar em você e que aí eu não vou querer entender mais nada, que se você for meu sabonete e me deixar tão limpa das minhas impurezas e incertezas eu não dou a mínima para mais nada mas eu só sorrio de volta, girando a taça de vinho que tomo pra amolecer minhas barreiras – você me conhece.

E você começa a falar e eu não consigo me concentrar. Eu não quero saber da fulana nova. Do problema novo do trabalho. Só fico pensando que não conheço ninguém que seja mais bonito do que você e ainda assim você parece tão perdido. A beleza não cura nada. Pode até ser um problema. E eu sei que você só conversa esses problemas comigo, prova de amizade, e eu sei de tanta coisa e eu tenho raiva dessa coisa de ser amiga, de ser só amiga. De saber que é pra mim que você liga de madrugada quando seu encontro foi ruim, é comigo que você vai comer no boteco fim-de-carreira e fica cem por cento você mesmo sem máscaras nem joguinhos [porque eu sou a mulher maravilhosa que você não precisa impressionar] mas não é comigo que você vai pra cama e nem é pra mim que você manda flores. E tudo isso depois de tudo aquilo e você me olhando como se tudo tivesse sido nada… E aí, quando você para de falar e me pergunta se eu entendi, e eu estava tão distante, sorrio e beijo a sua mão.

“- Vai ficar tudo bem?” Você me pergunta, e eu juro que eu queria dizer que sim, que se você deixasse ficava era tudo ótimo, que eu sei qual é a sua comida favorita e o carinho que você gosta quando tá cansado de tanto trabalho… Daria tudo certo se você deixasse a gente dar certo. Acabo dizendo que vai dar certo com ela, a fulana da rodada ou com qualquer uma dessas meninas que te aparecem, de qualquer jeito, mesmo que elas não te mereçam, não saibam rir das suas piadas sem graça, não saibam entender que você sempre abre demais a boca pra falar e pra dar risada porque no fundo, bem no fundo, você quer conquistar o mundo, engolir o mundo, viver o mundo inteiro pra já ou que elas não tenham paciência de ver um filme com você te agoniando com questões reflexivas para as quais você não dá a mínima, não saibam admirar a beleza das palavras dos versos que você escreve, não tenham paciência pra ouvir você falar da saudade que sente da sua vó ou pra notar a sutileza dos seus olhos mareados no cinema … Acabo te dizendo o que você quer ouvir: as coisas vão dar certo, e não digo mais nada. Engulo toda saudade que sinto. Todo sentimento. Me despeço e vou embora.

 Vou embora porque tô limpa e porque tô cansada, porque tenho medo, como posso ser são sua se nunca fui de fato sua? Quero que você sinta falta da minha tagarelice e por isso me calo. Talvez você ainda lembre do meu cheiro ou do gosto do meu beijo. Será? A dúvida me aflige. A pergunta me aflige. Você vai entregar para outra menina o que eu nunca fui capaz de fazer você querer me entregar. Eu sou tão sua e tenho tanto medo de te perder e você nunca foi nada meu. Você nunca quis ser nada meu. Dói. Inutilmente.

Eu vou embora com meu cheiro do seu sabonete. Eu vou embora tão limpa que não posso ir em nenhuma boate me esbaldar pra te esquecer, pra me sujar, pra ver se assim eu posso não te pertencer…

Vou pra casa ver televisão. Estudar um pouco. Comer algo saudável. Tomar vergonha na cara. Stalkear essa menina. Sei lá. Eu vou fazer qualquer coisa que me mantenha longe de você.. e aí me lembro que você mora aqui dentro.

Me dei por vencida. Tô na fila suja da boate torcendo para que me apareça um babaca e me distraia por algumas horas. Amanhã, será que você pode me emprestar de novo o seu sabonete?