Publicado em 12 de maio de 2016 Cultura, Destaques Café com conexão

O clima abafado que antecede a chuva. Um aperto danado no peito. Aqueles dias que a cabeça da gente borbulha os pensamentos de um jeito tão rápido que a boca mal consegue acompanhar. “Camisa cinza, certamente. Me deixa magra e hoje eu tô mesmo precisando me sentir magra pra ver se acredito um pouco mais em mim. Me sentir magra pra poder comer açúcar sem culpa. Me sentir leve. Que droga.”

A chuva começa a cair. Engarrafamento. Todos aqueles carros em tons de preto e prata na rua. Se fosse hoje em dia talvez Drummond se perguntasse: pra quê tanto carro meu Deus? O que será que aquelas pessoas estão pensando enquanto o trânsito não flui? Talvez o problema seja esse. Talvez a culpa seja do Bauman que me fez entender esse diabo dessa fluidez e me faça pensar nisso toda vez que eu me vejo fluindo numa conversa trivial. “Ah, pois é, eu sou do signo de trouxa com ascendente em sarcasmo. Trabalho com miçangas na praia. Sim, adoro primeiro encontro no cinema pra gente fingir que não saiu de casa só pra tentar trocar fluidos com alguém.” Hm, ótimo comentário sarcástico, talvez eu devesse anotar pra usar de verdade no tinder um dia desses…

Estaciono o carro vermelho. Suspiro.  Lembro do café de ontem com a amiga. Que tédio. O carinha que ela paquerou na balada. O colega do escritório que flerta com ela. O ex que vive pedindo pra voltar. A justificativa de ser sedutora por combinar escorpião, leão, gêmeos e libra no mapa. Sempre a mais bonita. A mais esperta. A mais estimada. Eu, que adoro beber café devagar pra ir saboreando a conversa tanto quanto o líquido, bebi tão rápido…

Cara, o ego devora. Devora a gente, devora os outros. Essa necessidade idiota de ter valor, de mostrar que vale a pena. Penso nas pessoas seduzidas pela minha amiga como retratos colados num álbum, como a gente colava adesivos no caderno na infância, pra mostrar que tínhamos os melhores e os mais bonitos. Pra existirmos no olhar de admiração dos outros. Tempos depois o álbum ia pro lixo, absolutamente sem importância. Posso quase ver a dita cuja abraçadinha no álbum em mais uma noite sozinha na sua cama enquanto tenta se convencer: “eu sou interessante, eu sou interessante, aqui está a prova”. Quase ligo pro Fernando Pessoa pra dizer pra ele que o poema em linha reta podia não ser tão reto assim – tenho certeza que quem muito se gaba se duvida. Somos todos farsantes. É só que alguns acreditam nas mentiras que contam a si mesmos. É só que alguns já entenderam que é uma mesa de poker e aprenderam a blefar melhor. No fundo tá todo mundo morrendo de medo, especialmente do que mais deseja. E aí haja desejo abafado. Que nem o clima hoje.

Sou conduzida de volta a realidade ao te ver já sentado. Você sorri e fica com os olhos ainda menores e essa é justamente a primeira piada que eu faço. Não sei como você não se cansa dela. Como não tenho cerimônia peço para trocamos de mesa para que eu possa sentar com as pernas confortáveis, do jeito que eu gosto. Fora que sempre prefiro mesas ao ar livre. Agradeço por você ter vindo mesmo sabendo que eu estou naqueles dias em que nem eu quero tomar café comigo. Agradeço por você ter vindo emprestar os ouvidos pra minha chuva torrencial de palavras.

Eu disse que não ia tagarelar, eu sei. Só que é quase sempre mais forte que eu. Misturo conversas inicialmente desconexas nessa minha sede de concatenar ideias. Começo falando sobre não permitirmos que as pessoas sejam especiais (possivelmente ainda sob a influência do papo repetido da minha amiga), te conto do meu ex-paquera que virou amigo quando me mandou uma carta muito bonita agradecendo por todas as coisas bonitas que eu havia ensinado a ele, tipo curtir o jazz do museu de arte moderna e Lenine, falo do livro de cartas que a gente deu de presente de aniversário pra minha vó pra que ela soubesse enquanto ainda podia saber o quanto era querida e tinha feito diferença na vida das pessoas. Você ri, me sacaneia, pergunta quantas vezes ainda eu vou sair com meus “pseudo-caetanos” até te dar uma chance de me fazer feliz.

Quando vejo já estou fechando o ciclo resumindo que a vida só pode ser eternizada no que fica da gente nas pessoas que a gente tocou. A gente só é eterno quando plantamos flores no coração dos outros, como a música de Luiz Gonzaga, como o meu avô, que já foi mas ainda está aqui pelo tanto que eu uso suas piadas ainda hoje. Calo a boca e sorrio pra você, meio sem graça. Detesto esses dias em que “Deus me tira a poesia, olho pra a pedra e só vejo pedra mesmo”. Não sei mesmo como você aguenta essas minhas filosofias de mesa de bar e esses meus clichês sentimentais. Você pega na minha mão e me olha nos olhos, parece querer me acalmar e consegue. Ficamos um pouco em silêncio entre um gole e outro do café.

“Você não faz a menor ideia do quanto você é bonita por dentro e por fora, não é? Você fica com esse medo de não ser especial e nem percebe que você já é. Você vai falando e eu fico de cá me emocionando. Sim, um cara, emocionado com um papo enquanto toma um café, moça. Você acha que isso é usual pra mim? Você diz que fala demais, mas falar todo mundo fala, o negócio é que você se expressa com o coração e isso é coisa de poucos. Você é diferente. Eu consigo me ver em você e isso me toca. Sério, por favor, não deixe nenhum desses manés fazerem você esquecer o quanto você é incrível e o quanto qualquer um deles vai ser sortudo por ter você, senão eu vou ter que me ver com todos eles…”

Sorrio. O lado sarcástico está aqui repreendendo o lado piegas por ter escapado do castigo e ter se exibido tanto, mas o que você disse foi tão bonito que eu nem ligo. Você levanta e volta com um bolo no copo pra eu afogar minha bad. Adoro como você aprendeu fácil que açúcar sempre é a minha resposta nem importa qual seja a pergunta. Eu sinto que alguma coisa na gente se encontrou e isso é reconfortante. Pra variar não estou sendo bonita no instagram, descolada no twitter, problematizadora no facebook ou interessante no tinder. Estou só sendo eu, falando de coisas que aconteceram na minha vida, me sentindo um pouco mais triste e cansada, sem maquiagem e com meu cabelo molhado. E justo assim, longe do meu 3g e do meu wifi e bem perto da minha vulnerabilidade máxima eu enfim me senti conectada. Não sei se você se dá conta da generosidade de me oferecer um dos elogios mais bonitos que já recebi. Fico te devendo por salvar o dia. Bem que dizem que café faz a gente acordar.