Publicado em 30 de junho de 2016 Cultura, Destaques Bonita, eu?

Eu tinha quatorze anos e roía as unhas, quando me disseram que se eu continuasse assim não iria arranjar um namoradinho. Que não arranjasse então, eu respondi, porque o que eu haveria de fazer com uma pessoa que avaliasse se queria ou não minha companhia baseado exclusivamente no tamanho dos meus cotocos?

Eu tinha dezenove anos e estava na faculdade quando um professor vez ou outra me falava que eu era bonita e que ele achava muito charmoso eu ter uma covinha só na bochecha. Eu adorava a matéria dele e estudava com gosto, mas de repente comecei a questionar a credibilidade das minhas notas. Será que eram mesmo fruto do meu conhecimento?

Eu tinha vinte e seis anos e perdi quarenta quilos. Me chamaram para uma conversa séria pois agora que eu novamente (tinha sido uma adolescente “normal”, tendo engordado a partir dos vinte anos, mais ou menos) estava “no padrão”, “bonita”, eu não ia mais ser vista como a moça séria e carinhosa de outrora pois certamente iriam aparecer muitos rapazes que iam querer apenas me levar para cama como “um troféu” e que se isso não fosse o que eu estava procurando era bom eu ficar atenta para não ser ludibriada. E, de fato, algumas criaturas com esse tipo de mentalidade cruzaram meu caminho. E eu, que namorei a vida inteira, sofri um bocado pra aprender (se é que o fiz) a lidar com isso.

Durante toda minha vida escutei por aí que “fulana só chegou lá porque era bonita” ou que “cicrana só está em tal cargo de chefia porque deve ter dado para alguém muito poderoso”. Sim, de acordo com as revistas, a tv, o cinema, as propagandas de cerveja ser uma mulher bonita e sedutora é nossa obrigação e sim, de acordo com as mesmas coisas, tudo que conseguimos na vida é apenas por causa disso e ninguém olharia duas vezes o nosso currículo para ver nossas credenciais ou daria bola quando o nosso namorado falasse de alguma de nossas outras características.

Talvez assim tenha começado minha birra com a beleza que parecia que todo mundo achava que eu tinha que ter. Quando muito mais nova, antes do primeiro beijo, eu achava que era impossível que algum dia eu fosse ser “bonita” como as meninas mais velhas do colégio e isso parecia ser uma maldição. Alguns anos depois eu observava as meninas cobiçadas conversando com os garotos mais velhos e francamente, eles pareciam não ligar a mínima para o que elas diziam, mais interessados em exibi-las. Não ser bonita então me pareceu uma sorte – quem ficasse comigo, teria que ficar por outros atributos, que eu tratei então de tentar aprimorar.

Assim fui me afastando cada vez mais dessa busca, ignorando as maquiagens, não sabendo sequer trançar meu próprio cabelo, achando salto alto a coisa mais chata que existia, engordando, usando roupas que não me favoreciam, achando tudo fútil e superficial.  Só que eu achava que essa neura era exclusividade minha. Que essa “decisão” sobre o que ser e essa crença de que só podia ser uma coisa só apertava a minha mente. Qual não foi minha surpresa ao ler o livro da Jout Jout e vê-la falando sobre como sempre aceitou ser feinha porque quando ela tentava ficar bonita por meio de algum artificio só parecia ainda mais óbvio o quanto ela estava se esforçando para ser bonita sem nunca conseguir? Ou quando eu vi o efeito reverso do peso da beleza ao escutar uma moça contar que por ser sempre a bonita todo mundo achava que ela era burra (inclusive ela mesma, durante muito tempo, se castigou pensando assim)?

Aí a ficha caiu. Eu tinha caído em outra armadilha simplista. Passei muito tempo com a cara enfiada em livros “cabeçudos” investindo toda minha energia para tentar ser inteligente ou interessante para compensar alguma coisa que eu julgava que me faltava e cuja falta eu não fazia ideia de como lidar. Conversei com uma, duas, três, várias meninas e descobri a pólvora: eu nunca tinha sido a única a ficar insatisfeitíssima na frente do espelho, a morrer de medo de tirar a roupa na frente de alguém e ao mesmo tempo querer ser muito mais do que isso, afinal, a carne é finda e caída ou lá em cima acabará embaixo da terra, mais dia menos dia. Eu não era a única que tinha caído no canto da sereia do “ou isso ou aquilo”.

Chegava a hora de acabar com a dicotomia. Eu podia ser bonita e engraçada e inteligente e qualquer coisa que eu quisesse. E não havia nada de errado em eu querer ser todas essas coisas.  Mas ops, aí não estava eu caindo na armadilha da “mulher-polvo”, que de tanto poder ser tudo acaba tendo que sê-lo? Eu não estava me dando obrigações de completude intangíveis? Estava. Então que tal se eu não precisasse ser nada, mas pudesse ser várias coisas, em vários momentos, com várias pessoas, dependendo da minha vontade? Parecia bom. Parecia um alívio. Parecia que enfim era só ser eu sem me preocupar em parecer esforçada demais ou desinteressada demais em qualquer aspecto da minha, enfim abraçada, pluralidade.

A gente passa tempo demais encucada com a gente mesmo, se cobrando, se espezinhando. Demorou muito mais do que devia, mas hoje quando alguém me diz que eu sou bonita eu consigo agradecer com a mesma alegria que eu estendo quando elogiam qualquer outro aspecto da minha personalidade (e eu adoro, porque como todo mundo, meti a cara no mundo atrás de reconhecimento). Sabe Cecília Meireles, eu entendo que “ou isso ou aquilo” se aplica a uma porção de coisas e resume muito bem a angústia da escolha, mas em alguns casos a cabeça da gente simplesmente cria escolhas onde não existem. Eu posso ser o que eu quiser. E uma coisa não anula a outra. Não há escolha a ser feita.