Publicado em 21 de abril de 2016 Cultura, Destaques Bela, recatada e do lar.

Sem nem abrir os olhos tateou a mesinha de cabeceira em busca do celular. Droga de despertador. Droga de ressaca. Droga de enxaqueca. Apertou o botão de desligar o despertador. Esfregou os olhos e os abriu. Droga, rímel nas mãos. Mais uma noite que foi dormida de maquiagem. Ah, se a dermatologista soubesse…

Saiu da cama antes que abortasse a missão. Arrastou-se até a cozinha seguindo seu próprio ritual: um café antes do banho, por favor. Despejou o resto do café do quente frio na larga caneca bordô. Colocou os óculos – que estavam tão sujos quanto sempre – e foi conferir as mensagens do whatsapp. Hm, mensagem do chefe. Solicitando que ela desse uma olhada na repercussão das redes sociais sobre a matéria da revista dominical com a provável futura primeira dama. Ele queria o mais rápido possível um posicionamento da revista sobre isso.

Deslizou o polegar nos aplicativos e descobriu do que ele estava falando. Que novidade, mais um dia em que todo mundo parece saber o que uma mulher deve ser! Recatada, há quanto tempo não ouvia essa palavra! Bebeu o café de uma vez por todas já sabendo que ele seria mais amargo do que o de costume e que o dia também seria mais longo. Nada de happy hour. Engov pra dentro. Maldita consciência.

Andou até o banheiro e parou na frente do espelho. Os cabelos cacheados estavam despenteados e o rímel não retirado espalhado como se ela fosse um urso banda. Riu e viu os dentes tão pequenos. Analisou a camiseta cinza puída que vestia e o short de elástico folgado. Colocou as mãos nos quadris e se lembrou que vestia número 44, coisa que dificultava a compra de jeans quase sempre, afinal muitas lojas nem chegavam nessa numeração. Apertou a dobrinha da barriga e fez um muxoxo. Bela… O que era ser bela, afinal? Belas chegavam tão felizes em casa que esqueciam de tirar o rímel? Belas tiravam a roupa e expunham cicatrizes, celulites, estrias? Belas deixavam de fazer a unha toda semana pra sobrar uma grana pra aquele livro bacana ou pro cinema do fim de semana? Belas eram as brancas, loiras, altas, magras, de cabelos lisos e olhos claros? Tá bom, cara pálida.

Entrou no chuveiro e deixou a água quente ir massageando sua pele. E o recatada, hein? Lembrou da minisaia que usava na véspera, para ir ao bar tomar longs necks e dançar até mais tarde do que o recomendado. Lembrava do beijo que o rapaz da banda havia lhe dado e que havia tirado seu batom vermelho, depois de ela ter elogiado sua interpretação de Cazuza e ele ter sorrido e dito que bom, Cazuza não diria que seria possível confundir as suas coxas com as de outras moças, certamente. E depois quando começou a banda de samba ela se lembrava de ter tirado os sapatos de salto – por que razão eu ainda insisto em usa-los mesmo, hein? – para usufruir melhor. Recatadíssima. Anham. Mas o que ela teria ganhado se assim o fosse? Mais respeito? Até parece. Bastava pegar o ônibus e ser encoxada usando calça social. Bastava andar na rua pra ouvir aquelas velhas palavras. Francamente.

Abriu o armário e escolheu o vestido favorito, longo, azul celeste, com estampas tribais estendendo-se ao longo do tecido. Era prático. Pegou a bolsa mais pesada do que o recomendado. Calçou o all star branco e ops, onde será que foi parar o protetor labial? Olhou bem para o quarto. Cama desforrada. Roupa de ontem amassada na cadeira. Na fruteira da cozinha não havia mais banana porque o mercado de ontem havia virado happy hour de última hora. Se um observador mais atento passasse os dedos veria a poeira em cima da tv, os livros espalhados sem ordem ou os cabelos que teimavam em cair e espalhar-se, como ela. Do lar? Definitivamente não. Mas o cara da banda tinha prometido que no próximo encontro ele ia fazer um risoto incrível…

Isabela deu uma última olhada antes de sair. Bela com suas olheiras de quem vivia as consequências de suas escolhas – tão válidas quanto as de qualquer outra mulher, recatada ou ousada, do lar ou do bar. Deu uma gargalhada. Aliás, que palhaçada era essa? Mulher é uma coisa só? Somos todas tudo. O que quisermos. Onde quisermos. Quando quisermos. E como quisermos. E não seremos obrigadas a nada. Bateu a porta e foi viver o seu dia.