Publicado em 31 de março de 2016 Cultura, Destaques A gente espera do mundo e o mundo espera de nós

Acompanhei com pesar a cobertura das bombas que explodiram na Bélgica semana passada.

Atentados não são uma novidade na história da humanidade. Inscrevemos a história humana no sangue de várias guerras – inclusive a “santa” que, desdobrada, se arrasta até hoje nas disputas de territórios sagrados para mais de um povo e/ou mais de uma religião. A intolerância não é uma criação da modernidade. Somos seres sociais e absorvemos as mensagens passadas através das gerações de nossos povos, interiorizando ódios que muitas vezes nem compreendemos. Não é possível compreender pessoas sem revisitar a história.

Luc Ferry, filósofo francês, explica que na lógica do Oriente (de maneira generalista) ainda se morre por causas religiosas, em defesa de crenças norteadoras imersas de significado. Segundo ele, no Ocidente já não estaríamos dispostos a morrer por religião ou por nossa nação como aconteceu na Irlanda com o embate entre protestantes e católicos ou na França na trajetória de sua revolução. Para ser exata, ele usa o conceito de “sacrifício” para nos remeter ao sagrado: o que é para nós sagrado (“Que, pelas suas qualidades ou destino, merece respeito profundo e veneração absoluta”, segundo o dicionário Michaelis) a ponto de valer morrer em sua defesa?

Luc defende que do lado de cá estamos dispostos a morrer pelas pessoas e conta em seu livro, A revolução do amor, uma história sobre uma escola francesa em Neuilly que invadida por um homem bomba, terminou com Sarkozy, na época então prefeito, entrando sem hesitar para negociar a libertação das crianças. Marketing político, alguns dirão – e talvez tenham mesmo razão. Outros podem ainda argumentar que basta reparar em como muitos europeus tem sido xenófobos com os refugiados que tem recebido, desde chefes de estado erguendo muros literais, a cidadãos sendo abertamente desrespeitosos e violentos com os “forasteiros” para questionar a tese de Luc.

O medo não é bom conselheiro, certamente. E como nos diz  Zygmunt Bauman em “Medo Líquido”, a globalização dilui a consistência do mesmo, as vezes tememos sem saber exatamente dar forma ao quê tememos, gerando angústia – energia que é gerada sem direção definida. Somos todos seres muito diversos e creio que ninguém possa prever como reagiria a situações tão complexas– não faço ideia de como seja nesse momento viver num continente hiper visado a ataques em função das posições defendidas e representadas, de modo que tento entender a combustão ao receber refugiados orientais no ocidente (salientando que entender não é sinônimo de justificar) como entendo o abismo que se abre – ao não aceitar incluí-los, não permitir que pertençam a cultura que os recebeu, não estimular que se apropriem dela – pode ser a porta aberta para que muitos procurem métodos de vingar-se do “pai” (para Lacan, a lógica da inserção em uma lei simbólica partilhada) que não cumpriu seu papel. A morte desse pai passa a vigorar no real.

Basta olhar a história recente e lembrar o episódio dos filhos de imigrantes incendiando a França de forma literal e através de suas exigências, do repúdio ao jogador Benzema na seleção francesa devido a sua ascendência ou de quantos jovens nascidos na Europa estão filiando-se ao estado islâmico. As razões são as mais pessoais e diversas possíveis, mas os pontos de convergência são gritantes demais para que sejam desprezados.

Por que motivo então vale a pena considerar que o pensamento de Luc sobre nos sacrificarmos pelas pessoas seja válido, nessa ideia que ele batiza de “espiritualidade laica” ou “revolução do amor”, nessa busca de sentido para a nossa vida presente? Talvez porque ainda passe no jornal gente que tenta salvar quem está se afogando nas inundações aqui no nosso Brasil. Talvez porque no incêndio da boate Kiss não faltou gente que entrasse na danceteria em chamas para tentar retirar as pessoas com vida que podiam estar ali. Nesse momento talvez, principalmente, porque os belgas, ao terem sua “casa” invadida e bombardeada por “estrangeiros”, abriram as portas de seus lares para abrigar os estranhos que ficaram sem ter como se deslocar pela Europa – já que todas as vias de tráfego de pessoas foram fechadas por questões de segurança.

Talvez não haja como evitar o medo, mas sacralizar o amor e as pessoas possa ainda assim ser construído como uma escolha pessoal de resistência. Quem sabe?