Publicado em 14 de abril de 2016 Cultura, Destaques 30 minutos de carência

– Por favor, passe o tíquete no leitor para ter a saída liberada.

– Er, desculpe se eu for incômodo, mas é que eu não pude deixar de reparar que você tem uma linda voz.  Só que eu sou um admirador de vozes, sabe? Não sei, ontologicamente acho que vem do meu pai, que trabalhava na rádio e sempre dava pitaco sobre a entonação dos outros apresentadores enquanto a gente escutava os jogos no velho sofá de couro, herança dos pais dele, como a tradição de domingar em casa… O velho era uma peça rara… Você já reparou nisso? Em quanto de nós vem dos nossos? Mas divago, desculpe. Não consigo não perceber que você está triste. E conhecendo a tristeza não consigo dizer “tudo bem?” e ir embora satisfeito com a resposta padrão, não, sabendo a verdade não dá pra fazer isso, por isso hoje a maioria não quer saber nada, só supor. Só “oi, tudo bem” e passa direto. Tem um quê de frieza, tem uma aspereza metálica na sua voz. Você fala esse “por favor” e não me entenda mal, é mesmo muito educado, e você parece mesmo muito descolada com essa conversa de “saída liberada” mas no fundo tem algo te afligindo, né?

Sons insistentes de buzina de carro. Um rapaz coloca a cabeça pra fora do carro e grita: sai da frente, ô maluco, libera a saída, idiota.

– Eu sinto muito que você tenha que passar por essas coisas, conviver com certas pessoas, é isso que tá te deixando triste? Eu fico mais triste quando tenho que fingir que estou bem.  Eu sei, eu sei que você vai dizer que a gente acostuma, a vida coloca a gente nesse ritmo de pressa, como o do rapazote que passou, a gente não tem tempo pra nada e vai gastar as migalhas do tempo que tem ficando triste? Minha esposa sempre fala isso. Quer dizer, sempre não porque ela quase nunca tem esse danado desse tempo para falar comigo, mas quando ela tem sempre se lembra de me dizer que desde que eu me aposentei virei um piegas. Não se preocupa moça, eu não me ofendo não. Eu tenho vontade de dizer pra ela que eu sempre fui piegas. De lembrar pra ela que quando a gente se conheceu e dançava de corpo juntinho e eu mandava cartas e plantei uma roseira para que ela cultivasse uma beleza que não morre, porque amar é regar e não colocar pra enfeitar entende? Nada disso foi piegas naquela época. Ou será que foi? Mas ninguém educa ninguém, minha filha, a memória de cada um é o que fica do que vai, não é? Igual a roseira dela. Já deu uma porção de rosas perfumadas, delicadas e protegidas por espinhos – porque até as rosas sabem que nem todo mundo sabe segurar a delicadeza com a sensibilidade necessária, porque até as plantas tem essa ontologia, esse conhecimento que vai se passando aos sussurros do vento enquanto a gente não tem tempo de perceber que está gastando tempo e não aprende nada com o silêncio do vento… É isso que te deixa triste, esse tempo que você passa aqui, sozinha, exposta? Tão guardada e tão acessível a qualquer um? Querer espalhar beleza e perfume e só ser convidada a espetar dedos indelicados?

– Por favor, passe o tíquete no leitor para ter a saída liberada.

Uma moto para. Desce um guardinha rechonchudo com cara de cansado. Ele caminha burocraticamente em direção ao carro e se abaixa a fim de ficar da altura da janela e encarar o motorista por detrás dos óculos:

– Boa tarde senhor. Posso ajudar? Perdeu o tíquete? Esqueceu-se de efetuar o pagamento? O senhor está dentro dos trinta minutos de carência?

– Boa tarde, meu jovem. Não, não foi nada disso. Eu só vim deixar umas camisas na lavanderia, mas aí eu ouvi essa voz saindo dessa caixa e sabe de uma coisa, acho que eu banquei as trepadeiras, me apeguei a primeira superfície pra poder ir em busca da luz, que nem a moça do filme falou. Não sei se você já reparou, mas imagina o quanto deve ser difícil o lugar dessa moça? O dia todo aqui dizendo pra todo mundo passar enquanto ela fica. Dia após dia, hora após hora, o tempo depois do tempo, ficando sem ninguém ficar com ela. Eu só não quis passar. Eu só não quis não olhar, não reparar nela, não agradecer por ficar em idos de passagem. Eu fiquei. Fiquei com ela.

O guarda faz que sim com a cabeça, um meneio confuso. Respira fundo. Ajeita o bigode cheio. Prossegue:

– Entendo senhor, porém o senhor precisa passar seu tíquete e liberar a saída porque já está causando certo tumulto no estacionamento esse bloqueio da cancela, o senhor me entende?

– Ah, os jovens. Não sabem mesmo lidar com quem quer ficar ao invés de sair correndo, não é? Desculpe seu guarda. Já vou indo então. Tenha uma boa tarde. E boa tarde querida, espero que essa tristeza passe. E que haja algo que fique. E haverá.